De Dondon a Dindin

Por Valdez Gomes

pele

Houve um tempo em que nome de jogador de futebol era Dadá, Dé, Didi e Dondon. E nessa época a bola era de capotão, pesava cerca de 450gramas que, em dias chuvosos, eram substancialmente acrescidos a outros tantos, pois, o couro, material que confeccionava essa bola, absorvia a água do campo.

Quem mais sofria nos dias chuvosos eram os goleiros. Estes carregavam consigo a pecha de que “onde pisavam não nascia grama”. Os coitados não usavam luvas e, por conta disso, não raras eram as vezes em que jogavam com os dedos fraturados.

As chuteiras eram inteiramente negras, e isso talvez fizesse com que os jogadores quase não caíssem com os esbarrões, inerentes a todo esporte de contato físico.

Substituições não eram permitidas, preleções eram conduzidas por guias espirituais, o bicho era pago em espécie – animal mesmo. Cabras, galinhas, porcos… essa era a moeda corrente. E, inclusive, vem daí o nome da bonificação extra concedida por vitórias.

As entrevistas pós-jogo eram realizadas no calor do vestiário, com jogadores ainda de toalhas e corpos com pelos em profusão e à mostra; o máximo de vaidade que se via era o gel Gumex, que alinhava as longas madeixas; ou o pente-garfo-de-metal, que aprumava as vastas cabeleiras black.

Época em que a rapaziada que entrava em campo eram apenas boleiros, de corpos naturais, sem excessos, trabalhados à base de polichinelo, cigarros e cerveja. Bons tempos eram aqueles…

Hoje em dia, na era do business, tudo gira em torno do dindin. Os boleiros viraram atletas, seus empresários, geralmente, os batizam com nomes compostos ou sobrenomes… é um tal Roger Medeiros pra cá, Rogério Pedro pra lá. Tudo isso deve ser para evitar que seu produto não seja confundido com um homônimo.

pogba

A bola permanece com o mesmo peso, contudo, hoje são impermeáveis, high-tech e indomináveis, talvez por conta das estilizadas chuteiras futurísticas que hoje vestem os pés dos jogadores. Aliás, tenho pra mim que toda essa evolução tecnológica das chuteiras seja o principal motivo dos jogadores não conseguirem permanecer de pé por muito tempo; devem ter investido em design e esquecido de trabalhar a aerodinâmica. É muita cor e desenho para os pés da galera, isso deve pesar na hora de cobrar um pênalti…

Se há uma coisa de legal nos tempos modernos, é a evolução dos guarda redes – como são chamados os goleiros em Portugal -. Antigamente a fragilidade técnica era gritante, contudo, de uns tempos pra cá, os goleiros aprimoraram suas técnicas e pode-se dizer que viraram o jogo. Nos tempos de Dondon, pênalti era sinônimo de gol, mas agora o buraco é mais embaixo, ou melhor, a distância entre a glória e o buraco é bem menor para os cobradores de penalidades.

Hoje o bicho é pago por título conquistado, mala branca é proibida e mala preta dá cadeia.

O vestiário é lugar-comum de palestrantes e seus discursos motivacionais. Gente que sequer curte futebol, inala mas não respira da mesma atmosfera que os cerca.

Certa vez Pelé disse uma coisa interessante:

“Na minha época, jogador sonhava ser cantor, e cantor ser jogador de futebol”

Isso é coisa do passado, Pelé. Agora é uma realidade. Não faz muito que o genial Ronaldinho Gaúcho emplacou um megassucesso nas baladas sertanejas e dia desses lançou seu segundo hit. Mal posso esperar para trocar de estação de rádio…

Provavelmente, essas composições surgiram em meio às peladas das “estrelas” que preenchem o vazio do fim de ano futebolístico.

A quinze minutos de começar mais uma partida, a estrela da companhia faz seu checklist: chuteiras bicolor (pé esquerdo verde-limão e direito de cor púrpura) da marca felina, devidamente calçada; caneleiras com a foto impressa da mulher e filhos; calção e camisa, de numeração menor para fazer aparecer o volume dos músculos do corpo minuciosamente depilado; cabelos milimetricamente em desalinho para dar o ar de casualidade, tudo certo.

Mas espere, alguma coisa está fora do padrão: momento de tensão, chama o “parça” às pressas e manda buscar correndo o Moysés; minutos depois, com cara de preocupado, Moysés, portando sua maleta, entra no vestiário e pede para ficar à sós com a fera; antes que o jogador diga qualquer coisa, o profissional interrompe o silêncio e grave dispara:

“Não precisa falar nada, você andou mexendo nessa sobrancelha. Deixa eu usar um corretivo nisso”

Da porta do vestiário, o “professor” iletrado tenta ouvir o que se passa lá dentro, pois teme pela ausência de seu principal jogador. Para alívio de todos, Moysés decreta que o astro vai para o jogo.

Inovações tecnológicas são bem-vindas, desde que não ultrapassem a linha imaginária do que move o futebol: a paixão.

Em tempos em que dindin ficou mais importante que o dom, vale lembrar o slogan de uma marca de refrigerante que dizia:

“Imagem não é nada, sede é tudo”

Fazer dinheiro é importante, mas imprescindível mesmo é não esquecer a essência do jogo e perpetuar a paixão por ele. O futebol agradece.

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Peixe Fora D’água

Por Davi Miranda

De quatro em quatro anos boa parte do mundo fica em frente às tevês para assistir à nata do esporte competir nas Olimpíadas. Temos as feras do atletismo, os tubarões da natação, os espartanos lutadores greco-romanos e muitos outros representantes estrelados, quase todos de altíssimo nível. Mas também temos um peixe fora d’água: o futebol.

A modalidade já começa toda errada, tendo início 2 dias antes da cerimônia de abertura (!). E Nelson Rodrigues achou foda o Fla x Flu começar 40 minutos antes do nada.

As estranhezas não param por aí: as partidas de futebol não ficarão restritas à capital fluminense, mas se esparramarão por diversos estados, escorrendo por Brasília e alcançando Manaus. É uma maravilha geográfica, pois você poderá estar na Amazônia e dizer que participou dos Jogos do Rio.

O futebol debutou nos Jogos Olímpicos em 1908, sendo o segundo esporte a entrar. À época até se justificava, pois a primeira Copa do Mundo só viria a ser disputada 22 anos depois, no Uruguai. Mas, hoje, temos competições suficientes entre seleções. Somente este ano já tivemos a Copa América, a Eurocopa, e de quatro em quatro anos temos os Mundiais. E para a base temos os Mundiais Sub-20 e Sub-17, realizados de dois em dois anos.

Por falar em idade, nas Olimpíadas há uma mistura bizarra: dos 18 convocados, no máximo 3 podem ter mais de 23 anos, gerando uma mix de garotada com tiozões. Para dar mais emoção poderiam também definir que 3 jogadores deveriam ter mais de 60 anos.

O aspecto técnico contradiz meu parágrafo de abertura, pois o futebol masculino não leva sua nata para as Olimpíadas. Além de não dar muita importância à competição, a maioria das confederações parece apenas cumprir protocolo quanto as disputas, enviando seleções cheias de desfalques, principalmente aqueles que podem ter mais de 23 anos.

Apenas a modalidade feminina se justifica. Com muito menos visibilidade, apoio, patrocínio e fãs, é nos Jogos Olímpicos que as meninas têm sua oportunidade de brilhar, proporcionando, inclusive, competições muito mais interessantes que a masculina. Ponto pra elas.

As tradições são para serem mantidas, contudo, os paradigmas devem ser quebrados. Passou da hora do futebol masculino dar adeus aos Jogos.

peixe

 

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Um Domingo Qualquer

Por Gabriel Gomes

 

Éder

 

É Domingo na zona norte.

A dona de casa com seu carrinho de feira desce as escadas com a destreza de uma jovem na passarela; o aposentado com seu jornal debaixo do braço e seu bilhete da Mega-Sena, pronto para ser conferido, ruma para o carteado no centro da praça que já atrai a atenção de alguns curiosos; o açougue do seu Peçanha anuncia a promoção da alcatra – o açougueiro que você conhece desde criança, com a mão enegrecida pelo tempo e pelo sangue desprendidos pelos cortes acidentais e propositais, embala os bifes pra viagem no jornal velho da semana, finalizando com aquele barbante em extinção; no bar do Haroldo a cerveja na mão é sempre a mais barata, desde que esteja gelada. Ainda estamos no Brasil que meu avô me apresentou anos atrás.

A algumas quadras dali um menino despertou junto com as primeiras luzes tatuadas no chão de uma tímida rua sem saída. O asfalto recortado e irregular sustenta o relvado de um time de pelada conhecido como Quaresminhas F. C., fruto de uma geração desacreditada, que nasceu com mais habilidade nos dedos e menos nos pés.  Tradicional nas ruas do subúrbio, parava os carros da avenida principal com uma corda, visando arrecadar fundos para um jogo de camisas e, com sorte e algumas moedas, um cachorro quente no Romeu. Era um dia incomum e especial na vida do menino. Cristiano e amigos de rua estavam na final do campeonato do bairro.

Cristiano era moleque bom de bola. Desde cedo frequentou todas as categorias do time de futsal do Bonsucesso, o “Leão da Leopoldina”, até um olheiro atento levá-lo para o Botafogo de Futebol e Regatas e torná-lo celebridade em seu modesto bairro. O garoto, criado pelo avô, atraía uma legião de fãs, de aposentados a anotadores de jogo do bicho. Contudo, o prodígio da cercania onde morava cultivava a fama de “pipoqueiro” quando vestia as cores do Quaresminhas FC.

Quando tinha jogo era uma celeuma e uma balburdia na rua sem saída, todos reunidos para ver Cristiano, que raramente correspondia às expectativas dos curiosos que se acotovelavam atrás dos gols delimitados pelas chinelas dos meninos. Seus amigos de infância, orgulhosos, esperavam o ano inteiro para jogar junto ao futuro craque no campeonato anual de ruas do bairro, mas sempre voltavam para casa derrotados e decepcionados.

O menino era extremamente vaidoso e suas madeixas eram as primeiras vítimas das homenagens após nova derrota. Cristiano não conseguia brilhar no time em que deu seus primeiros chutes. Aquela final era a chance definitiva de redenção. Ganhar o respeito da sua gente e dos seus amigos de infância.

A trajetória do time dentro da competição foi tortuosa, recheada de empates e disputas de pênaltis, mas, com uma tabela favorável, conseguiram alcançar a final pela primeira vez no histórico campeonato do bairro. Cristiano finalmente fez um bom campeonato, com gols decisivos e atuações dignas do que dele se esperava. Sua estrela finalmente começava a brilhar no Quaresminhas FC.

A final seria jogada na Avenida Paris, tradicional no bairro, que ficava parcialmente fechada aos domingos como área de lazer. O anfitrião era o adversário da final, time formado pela molecada que jogava na base dos principais clubes da cidade. Teríamos Quaresminhas FC x PutaqueParis AC, uma final que ninguém esperava.

Naquela manhã, respeitando o ritual pré-jogo, Cristiano abriu o seu blog preferido (https://pitacosacidos.com.br/) e leu uma crônica chamada “O Menino Francês”. O texto o fez refletir como aquele jogo era importante para ele e para todos as humildes famílias que moravam na sua rua. Seria um momento de alegria, de fuga da realidade sofrida e financiada por R$ 880,00 por mês.

Chegara a hora.

Na manhã de domingo surgiram desocupados de toda a parte; até um empresário chinês, famoso pelas pastelarias no bairro. A avenida que transboradava pessoas durante a semana estava cheia no domingo também. Chinelos afastados pela contagem de 6 passos descuidados de um tio solteiro que apitaria a peleja estavam simetricamente dispostos. Times em campo. O hino nacional foi conduzido por uma banda de varizentos aposentados que marcavam presença nas sociais dos jogos do Bonsucesso e nas inaugurações de lojas de R$1,99 e Hortifrutis. O clima era de festa e expectativa

Rolou a bola, todos os olhares miravam o camisa 7 dos encarnados da Travessa Quaresma. O gol do adversário era questão de tempo e bom senso.

A bola insistia em não chegar, então Cristiano resolveu buscá-la no campo de defesa. No primeiro lance em que a recebeu, o pródigo rapazote adiantou-se e a dividiu com um viril garoto vitaminado. Todos escutaram o choque, e a Zona Norte da cidade ficou em silêncio por um momento. Ninguém queria acreditar, mas era o fim de algo sonhado por muitos. Cristiano não se conformava. Entre lágrimas e soluços, não acatou a decisão do Seu Caetano, aplicador de injeções da farmácia da praça, que decretou a lesão no joelho. Várias tentativas de volta e insubordinações depois encerraram de vez a partida para o vaidoso garoto. Acabou.

Só restava para o gajo torcer e apoiar o time no alto do muro onde ficavam os reservas e palpiteiros. Uma chance finalmente seria dada ao esquálido e amargurado Éder, filho mais novo da casa mais pobre da rua – seu pai era vendedor de balas no trem e sua mãe lavava roupas no tanque de suburbanas madames emergentes.

Jogo amarrado, poucas chances para ambos. O tempo regulamentar acaba. Cristiano sente que poderia ter decidido o jogo se tivesse em campo, mas, cumpre à risca sua liderança, orientando os amigos e esbravejando contra a arbitragem.

Prorrogação!

Naquele momento, os Quaresminhas já sairiam de lá campeões, seja pelo feito de terem chegado à final, seja pela partida briosa que todos jogavam sem o seu maior craque. Mas os deuses do futebol resolveram fazer das suas. Tempo extra rolando e todos naquele perímetro de subúrbio apostavam que as penalidades eram inevitáveis. Até que….

… após uma roubada de bola no campo adversário, a bola cai nos pés do perdido Éder. Ele tem a bola dominada fora da área de frente pro gol. Um defensor resolve dar o combate e fica pra trás, Éder olha para o gol e enxerga ao lado seus pais fitando-o com extrema delicadeza e ternura. Dali em diante, um chute é desferido e a bola morre cuidadosamente no fundo das redes imaginárias. A metros de seus pais.

Acabou. Todos invadem o asfalto e querem tocar no menino que antes nem conheciam e passava despercebido pelos cenários daquele bairro. Éder e Cristiano cruzam seus olhares, ambos carregados por todos que ali estavam.

Presentes naquele Domingo, a família de Éder tinha esquecido como era sorrir e comemorar. Cristiano refletiu que Éder e sua família precisava muito mais desse título do que ele e seus fantasmas.

 

 

 

 

 

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Sem Cosme, Com Damião e a Pergunta: Vai ter Doce ?

Por Victor Mesquita

 

damião

 

Como classificar a diretoria do Flamengo? Mais perdida que cego em tiroteio, que surdo em bingo ou cachorro caído de caminhão de mudança?

A promessa de um time forte, mesmo que a longo prazo, feita no início do mandato presidencial de Bandeira de Melo, vem com contratações na base da aposta. Em seu 4º ano como presidente do rubro-negro carioca não há um time montado.

Rodrigo Caetano é o reflexo do parágrafo inicial. O cara que chegou com bom currículo e como solução para os problemas em campo, mas não passa confiança aos mais críticos e com seu jeito sereno esconde um desespero em suas decisões.

Guerrero com seu astronômico salário e péssimo custo-benefício, Ederson com suas intermináveis lesões e a ida e volta de César Martins são exemplos de como a casa está desorganizada. Isso sem esquecer de Mancuello e Cuellár, que vieram como solução e foram, inexplicavelmente, parar no banco de reservas.

Jogadores chegam, mas não para compor elenco, como deveria ser. São titulares com apenas alguns poucos dias no clube. Os que lá estão não conseguem se encaixar no esquema de jogo, deixando assim qualquer técnico em desespero.

As perguntas para a atual situação do clube são muitas: problema dos treinadores? Má vontade dos jogadores? Má gestão do futebol?

Qual opção escolher? Todas? Depois da saída de Muricy e a entrada de Zé Ricardo, eu eliminaria a primeira.

No cassino rubro-negro a aposta da vez se chama Leandro Damião.

Aquele que jogou pelo Internacional de Porto Alegre, chegou à Seleção Brasileira, foi cobiçado pelos grandes clubes europeus, mas teve seu futebol roubado sabe-se lá por quem.

Aquele que, mesmo em baixa, chegou ao Santos como supercraque, numa tresloucada atitude da diretoria do Peixe.

Foi repassado ao Cruzeiro e, mais recentemente, ao Bétis da Espanha, onde atuou por 179 minutos – sem marcar gols.

Por sinal, o último gol de Leandro Damião faz tempo! Foi em novembro de 2015, ainda pelo Cruzeiro.

Novamente a diretoria rubro-negra, num ato desesperado, brincando com os sentimentos de seus torcedores, ativa seu modo rehab para trazer um ex-craque (mesmo jovem, com seus 27 anos) para um período intensivo, onde terá que, não só reaprender futebol, como também salvar o clube da Gávea de mais um ano de vexame. Time que, com o elenco que tem, não pode ficar no meio da tabela.

Resta saber se Damião, desfalcado de seu parceiro Cosme, deixará um gosto doce ou amargo na boca dos rubro-negros.

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Carne & Osso

Por Valdez Gomes

 

BOLA

 

Amigo Leo, confesso que ao pegar o laptop e iniciar o e-mail, a intenção era a de pegar carona na onda da manifestação que tomou conta do mundo. Mas, quer saber? Não vou tentar dissuadi-lo de sua decisão. Do instante em que abri a folha em branco ao momento de escrever seu nome, repensei se não é você o único certo nessa história toda.

Quando aquela sua cobrança passou por cima do travessão – tenha sido por excesso de preciosismo, nervosismo ou a inveja de “Dios” -, com ela foi também um pouco de minha alegria. Nós dois sabíamos o quão importante era converter o pênalti em gol e a Argentina em campeã, mas quis o destino que não fosse naquela triste noite, Leo.

Não se martirize, hermano. Que culpa tem por ter como homem gol o Ingua(ín)? Sei que você não o considera isso, mas, para mim, que te admiro e sou seu amigo desde moleque, é inevitável o trocadilho infame com o Gonçalo. O cara teve, em duas finais, a chance de fazer justiça com sua geração, coroando-a com um Mundial e uma Copa América, mas o que ele fez? Consagrou Neuer e Bravo, colocando você na condição de fracassado.

Pulga, essa seleção não te merece. Esse povo não te ama. O que estão fazendo agora não é demonstração de amor, isso tem outro nome – chama-se remorso. Precisam de você, todos eles… imprensa, torcida, políticos, empresários e até mesmo Diego! É, e pensar que lá no início você rejeitou jogar pela melhor safra da Espanha para defender a camisa de sua pátria mãe. Agora vemos o quão mesquinha e megera sua matriarca é.

Fica tranquilo, Léo, o tempo se encarregará de absolvê-lo e colocá-lo em seu devido lugar na história. Você não é Craque, Deus, Rei, Lenda, Messias, Mito, ou sequer deste planeta. Você é extraterrestre! E só um detalhe; a Lenda, como Ibra se autoproclamou; o Messias, como Zico é chamado, e o Mito Português também não foram agraciados com esses canecos.

Não se preocupe com as comparações, os amantes do futebol sabem que você já é o maior da rica escola argentina de futebol. E não será sua passagem pela seleção nacional que irá manchar sua história.

Você fez sua parte, quem dera tivesse ao lado Rivaldo, Ronaldinho, Burruchaga, Valdano, Jairzinho, Gérson, Xavi ou Iniesta. Mas você só teve Di María…

Querido amigo Messi, decida como quiser seu futuro, qualquer que seja o rumo, saiba que pode contar comigo, sempre.

Um grande beijo e os eternos agradecimentos de sua querida amiga,

Bola.

PS. Redes e Balizas mandam dizer que assinam embaixo tudo o que eu disse. 😉

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Lado B

Por Davi Miranda

 

CASA

 

Depois da padaria havia a rua E. Nessa esquina, se virasse à esquerda, dava no Colégio Batista e, caso dobrasse à direita, saía numa pequena ladeira. Lá no alto era a casa do Erlizinho, e margeando seu muro até o fim chegava-se à rua B. É nela que nossa história se passa.

Tinha pouco mais de 20 casas. O fato da rua não ter saída proporcionava às famílias um ambiente tranquilo e pouco movimentado. De terra batida e pedras soltas, vez ou outra um filete de água escorria rua abaixo: eram os quintais sendo lavados, acompanhados do barulho das piaçavas raspando o chão molhado.  A maioria das pessoas vivia ali há décadas, em harmonia, e os adultos eram chamados de tios e tias pelas crianças vizinhas.

Dona Efigênia, idosa e obesa, não tinha pique para se levantar, então nos dava liberdade para abrir o portão na hora que quiséssemos. Seu quintal era de concreto, contudo, nele havia uma fenda no chão, de onde saíam as raízes de uma goiabeira que ficava carregada de janeiro a março.

A mãe do Gui morava na casa verde. Ela era legal, mas tinha tanto medo que ele se machucasse que, mal a gente começava a correr, mandava-o entrar. O vovô era muito amigo de seu pai.

O Jonas tinha os brinquedos mais bacanas, sempre chegava com novidades. Ir à sua casa era a maior felicidade do mundo!

Seu Cosme morava ao lado dele, numa casa de muros enormes. Vivia sozinho, saía pouco, e quando o fazia voltava logo. A gente nunca entrou lá, com medo dos cachorros. Ele, muito bondoso, ficava na porta, com um caderno, fazendo origamis pra turma.

E era assim, de um lado e de outro havia pessoas que não só acrescentavam, como também eram extensões de nossas famílias.

Eu, meus pais e irmãos morávamos na parte de cima do sobrado que dava fim à rua. A vida era simples, mas boa. Que saudades eu sinto…  ia à escola, almoçava e depois brincava até a hora de dormir.

A turma era grande. Bolávamos todo tipo de brincadeiras e depois, quando a tarde caía, a maioria das famílias se sentava às portas para prosear.

Domingo a festa era completa, pois quase todos estavam em casa. Além de frango com macarrão, também tinha Coca-Cola. Depois, para ajudar a digestão, a molecada se acabava de jogar taco ou futebol. As ripas de madeira serviam de bastões; os pares de chinelos, traves.

Era comum que as bolas caíssem nas casas vizinhas. Na de dona Efigênia não havia problema, pois o portão ficava aberto e nós entrávamos quando queríamos; seu Dair, que era ourives e tinha uma oficina em seu quintal, não se incomodava; dona Letícia, da casa rosa, era a única mal humorada e, aos berros, jogava a bola sobre o muro. Ruim mesmo era quando alguém chutava longe e ela rolava ladeira abaixo.

Num feriado desses, o Almir, da Rua E, chegou com uma bola de vôlei novinha; demos logo jeito de montar uma partida. Atravessando um barbante pela rua, com uma parte amarrada no poste e outra na grade da casa do Gui, tínhamos a rede.

Inspirado nas viagens intergalácticas que Bernard nos proporcionou naquelas Olimpíadas, emendei um saque Jornadas nas Estrelas. Saiu como era de se esperar, bem torto: subiu, triscou no poste e rolou pra lá dos muros da casa de seu Cosme.

Foi a primeira vez que a bola caiu em seu quintal e ele não a devolveu: tinha levado os cães para vacinar. Ergui os olhos do chão e dei de cara com os do Almir que, alterado, não aceitou consideração alguma e exigiu que eu fosse buscá-la. Nunca havíamos entrado na casa do seu Cosme, afinal, seus cães eram extremamente agressivos. Pressionado, tomei coragem e resolvi arriscar.

Tentamos pé-pé, mas em vão, o muro era muito, muito alto. O portão não cedia, possuía trancas seguras. Queríamos entrar, mas sem chamar a atenção dos adultos. Até que resolvemos tentar na lateral, pelo quintal da dona Efigênia, ao lado do dele. O Edmilson buscou uma escada na garagem de casa. Firmaram na parede e eu subi. Lá do alto a rua era muito mais bonita.

Preocupava-me que alguém me visse naquela situação, invadindo a privacidade alheia. Sentia um misto de medo e vergonha, e aquilo foi embrulhando meu estômago. Comecei a suar frio e por pouco não caí. Sentindo que eu titubeava, perguntaram lá de baixo se eu estava com medo. Respirei fundo, agarrei-me ao muro e resolvi seguir em frente.

À minha direita o tamanho do quintal do seu Cosme impressionava. Além disso era mal cuidado, com frutas caídas das árvores e diversos objetos espalhados. Procurei um lugar para descer mas não achei. Sentado, raspando a bunda no muro, fui rodeando a casa, procurando um ponto favorável.

Mais ao fundo, vi uma construção de alvenaria em que poderia por os pés, era onde os cães ficavam. Segurei no topo do muro, deixei meu corpo escorregar até que se estendesse por completo e, quando a ponta dos dedos tocou a laje do canil, soltei-me. Caí em cima das casinhas, e dali dei um pulo pro chão. Ainda agachado, passei um tempo olhando aquelas grades, e só de imaginar os latidos meu corpo se arrepiou.

Com o coração acelerado, dei-me desesperadamente a procurar a bola naquele lugar enorme. O chão, talhado de folhas secas, confundia minha visão. Comecei a vasculhar o quintal, andando e olhando por todos os cantos, mas nada. Até que sussurrarem meu nome. Fiquei paralisado, não sabia o que fazer. Chamaram novamente. Será que seu Cosme chegara e alguém tentava me avisar?

Foi quando olhei pra cima e vi o Almir, que gritou “anda logo!”. “Seu Cosme chegou?”, indaguei, mas ele abanou a cabeça que não. Respirei aliviado. Apressado, comecei a correr, e cheguei ao lado oposto da casa. Lá estava a bola, junto ao tronco de um pé de jambo. Meu coração sossegou. Com um chute mandei-a de volta pra rua, e deu para ouvir as batidas secas quando deu as primeiras quicadas lá fora.

Subi novamente no canil, e quando me agarrei ao muro para me erguer de volta, ouvi uns barulhos estranhos. Olhei para cima, mas não havia ninguém. Ajeitei-me novamente para subir, e outras pancadas vieram. Não eram de fora, pareciam vir de baixo.

Ignorando o fato de que seu Cosme chegaria a qualquer momento, desci para averiguar o que era. Abri a porta do primeiro canil e nada; apenas o mau cheiro de urina e uma vasilha de água pela metade. Abri o segundo e o panorama era o mesmo: dejetos de cães e vasilhas. E na terceira casinha a mesma coisa. Mas as batidas se intensificaram. E vinham do quarto canil.

Ao abrir a portinhola de ferro, ouvi outra batida vinda de dentro. Resolvi entrar. Agachei-me, e naquele local escuro senti uma estrutura de ferro sob os pés. As batidas recomeçaram e não pararam mais. Amedrontado, senti um calafrio subir pela espinha e entrei em desespero. Vi uma lâmpada sobre a cabeça e o interruptor à minha esquerda. Liguei-o.

Havia um alçapão sob meus pés, trancado fortemente. Percebi uma portinhola, e com certo esforço consegui girá-la. Horrorizado, revelou-se a mim um rosto com tanto sofrimento que seria impossível descrevê-lo. Era uma menina, desesperada, esforçando-se para se comunicar comigo, pulando com todas as forças, chorando e gritando. Separados por um espesso vidro eu não podia tocá-la e tampouco conseguia ouvi-la.

Saí dali nem sei como. Nas investigações descobriram coisas terríveis sobre seu Cosme, e ele ficou todos esses anos preso. Amanhã será colocado em liberdade condicional, e por isso essas lembranças me voltaram com força. Não que eu passe mais de dois dias sem elas, mas ultimamente não consigo pensar em outra coisa.

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Maionese Camisa 10

Por Alan Parada

 

maionese

 

Experimente ir a um desses grandes restaurantes fast food (McDonald’s, Burger King, Bob’s) e pedir maionese para acompanhar seu lanche.

Em alguns casos, vão te cobrar pelo sachê. Um valor “simbólico”, dirão alguns, mas vão te cobrar pelo o que antes era de graça e liberado. Em outros casos, vão negar.

Estão evitando a maionese. Isso é um absurdo! Estão tirando a maionese do campo de jogo.

Seus companheiros ketchup e mostarda ainda estão lá, liberados à vontade e de graça! Sem nenhuma desculpa ou problema para te oferecerem.

Ontem estava lanchando e fiz essa reflexão.

A maionese é o camisa 10 do futebol. O 1 do Zagallo. O enganche. O meia de ligação. O craque.

Num futebol onde cada vez mais se joga pelos lados do campo, em velocidade absurda, o cara que pensa o jogo entrou em extinção. Como a maionese.

As desculpas para a retirada da maionese são inúmeras, como “nossos lanches já vem com esse molho”, ou ainda, “é melhor para a saúde não comer”; assim como a desculpa para a falta do 10: “O campo ficou menor”, “há menos espaço” “não tem lugar para este tipo de jogador no futebol moderno”.

E te oferecem cada vez mais jogadores que correm e não pensam, atacantes que voltam para marcar laterais, meias que são a legítima “enceradeira”, girando e passando a bola para o lado. São o ketchup e a mostarda.

Eu sou fã dos dois. Maionese e enganche.

Acho que dão um toque especial na mesmice que se tornaram os sanduíches e os jogos de futebol. E fico triste quando vejo uma lanchonete ou time sem oferecer esse clássico acompanhamento.

Puxem na memória a última assistência vertical para o atacante entrando pelo meio, cortando a zaga; aquele tradicional “faz e me abraça”. É artigo muito raro. Estamos vendo uma chuva de gols de cabeça, em cruzamentos da intermediária ou de belas batidas de fora.

Os caras que poderiam fazer essa função de jogar com o cérebro estão sendo recuados, jogando cada vez mais longe da área adversária para poder “qualificar o passe” ou enfiar bolas para jogadas de ultrapassagem rápida dos laterais.

Quantos segundos volantes não seriam ótimos meias de ligação se, antes de tudo, não tivessem a obrigação de marcar?

Fico aqui imaginando como seria se esses caras tivessem a obrigação de marcar a saída de bola adversária, o brucutu do lado de lá. Uma roubada de bola e… Saco!

Por que, Deus do céu, colocar esses caras perto da própria área, se eles podem render muito mais estando perto da área adversária? O jogador não precisa ser rápido, habilidoso e driblador para ocupar essa faixa de campo. Precisa ser inteligente, para atacar na hora certa, defender quando necessário e distribuir a bola, no último passe, pelo meio. Por qual motivo, razão ou circunstância é necessário que o cara que tem mais qualidade no time entregue a bola para outro que só corre, procura a ponta e cruza bolas na área?

Não me levem a mal, não sou contra os laterais. Apenas acho que deram importância muito grande para os que correm, ao invés dos que sabem trabalhar a bola. E, convenhamos, também estamos carentes de bons laterais no mundo.

Lembro da máxima dos mais antigos, que diziam que “quem deve correr é a bola”, e vejo hoje jogadores desesperados em correr mais que ela, em voltar correndo, como se tivesse um cracudo da Central lhe roubado a carteira.

Imagino como Ganso deve se sentir.

Gansos são espécies em extinção (o jogador, não o animal). Chamam-no de preguiçoso, dorminhoco e outros tantos “adjetivos”. Concordo que o rapaz poderia ser um pouco mais do que é, mas, é inegável que o jogo é diferente quando a bola passa por seus pés. Parece que o Mundo gira um pouco mais devagar, os espaços se abrem e as bolas abrem defesas como o cajado de Moisés abriu o Mar Vermelho.

Lembro de alguns jogadores que foram isso tudo, e vejo também que foram poucos os que tiveram destaque inegável, principalmente na seleção.

Alex, Djalminha, Diego e os gringos Pet e Conca – só para ficar em 5 recentes – além do já citado Ganso.

Podem ser chamados de craques, pois suas qualidades são inegáveis. Mas nenhum deles obteve destaque nas seleções (o argentino sequer foi convocado).

Num futebol cada vez mais gourmet, estão tirando os nossos molhos tradicionais e nos enfiando goela abaixo novos conceitos gastronômicos.

Tirando nossa querida maionese e trocando por passes laterais e chutões. Substituindo nossos camisas 10 por pasta de ricota com molho agridoce.

E assim, segue o jogo, com menos maionese e menos camisa 10. Mas sempre gostoso, pois somos fanáticos por isso.

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