Ponto e Vírgula

Por Valdez Gomes

Amarrou as chuteiras, ergueu a cabeça e seguiu adiante. Cumprimentou cada um dos seus companheiros, amigos, desafetos, todos cabiam naquele último abraço antes do jogo de despedida do clube que defendeu por alguns anos.

Rocha, como era chamado em campo, pediu a palavra e discursou brevemente sobre sua passagem pelo clube, onde fez títulos e conquistou amigos. Articulado como poucos naquele universo de “fazer o que o professor mandar e ir em busca dos 3 pontos”, falou de metas, conquistas, desafios e de algo que para ele, naquele momento estava concluindo… mais um ciclo em sua vida profissional.

Ali, naquele meio de campo, por vezes, no ufanismo de torcedor, não faltou quem o chamasse de “nosso Zidane”. Por ironia do destino, seu sobrenome era antagônico à leveza com que se movimentava em campo. Valdir, seu amigo pessoal e fã de seu estilo, dizia que “ele não tocava a bola, comunicava-se com ela”.

No jogo derradeiro, não fizera nada diferente do que sempre fez. A mesma categoria da estreia e o empenho das decisões permeou a partida de despedida. Seus fãs ainda não sabiam, mas ali, Rocha encerrava mais um ciclo vitorioso. Mais tarde a notícia veio à tona, dividindo opiniões. Houve quem o crucificou e também os que o apoiaram.

Ao final do jogo, na segurança de quem sabia o que estava fazendo, encarou mais uma entrevista coletiva… a última defendendo as cores do clube. A tônica não poderia ser outra, as perguntas talvez sim. Entre tentativas de arrancar a declaração bombástica ou descobrir o lastro de pólvora que o fizera sair, uma jovem repórter captou o espírito da coisa e, com ar espirituoso que a nova juventude carrega consigo, foi precisa:

– Então é isso, o que você está nos dizendo é que “tem, mas acabou”?

Rocha encarou-a por alguns segundos e, para ela, como quem aconselha, respondeu:

– Ao longo de minha carreira, driblei, fui driblado, bati, apanhei, sofri, sorri, perdi e conquistei. Tudo isso faz parte do jogo da vida. Sempre que eu me perguntava o motivo de estar ali, tinha resposta para me dar. O objetivo traçado na ponta da caneta que assinou meu contrato guiava-me pelas linhas do campo. Eu fazia parte do projeto do clube, o clube era parte dos meus projetos. Tínhamos metas comuns. Não era só mais um jogo, planejamos juntos o início, meio e fim deste ciclo. Mas outro dia, após mais uma vitória nossa, voltei a me questionar… O que estou fazendo aqui? – Nesse momento, Rocha fez uma pausa, bebeu um copo d’água, voltou seu olhar para a menina, que ávida por mais, o fitava com admiração.

Então, com a plena certeza de quem indica onde fará a infiltração da bola entre os, zagueiros, concluiu:

-Nesse dia, a resposta não foi a de sempre. Aliás, eu não tinha resposta. Eu titubeei. E quando o amor vacila, é sinal de que já não há razão para estar ali. E como você bem colocou… ainda tem, mas por aqui acabou. Em breve mando notícias sobre meu novo amor. Obrigado a todos, boa noite! Até breve!

E assim deu ponto final na entrevista e um ponto e vírgula na carreira.

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