Iconoclastas

iconoclasta

Por Davi Miranda

Sem apoio, remando contra a maré, no ambiente hostil e carente de suporte que é o esporte brasileiro, emerge, ainda que raramente, um ou outro vencedor. De pés descalços e mãos calejadas, esses atletas bebem na fonte das dificuldades. No início o foco não é ganhar, mas permanecer. A falta de recursos pede adaptações; a solidão pede perseverança; as quedas pedem fortalecimento.

Cedo aprende-se a levantar: de tombo em tombo, de não em não, esses atletas vão se moldando na poeira do destino. Como bruta flor que brota entre as pedras, contrariando conselhos e previsões, levado por um redemoinho carregado de esperanças, surge dos caminhos mais improváveis uma medalha de ouro. Assim nascem os campeões olímpicos no Brasil.

Depois de atingido por um raio divino, a mídia, tão boazinha, trata de perfumá-lo e entregá-lo em nossas casas na embalagem mais reluzente, alçando-o ao status de novo herói. Nós, quase que instantaneamente, passamos a adorá-lo e, como que laureados, dormimos no embalo do sonho alheio.

Mas, passada a inebriada euforia das conquistas, volta-se ao ciclo das disputas. E bastam alguns resultados ruins (ruim, nestes casos, é quando o ouro não vem) para que passemos a contestar nosso objeto de adoração. Mas, tão difícil quanto chegar ao lugar mais alto do pódio, é manter-se nele. E os sofridos atletas, que deram a vida por ouro, veem-se obrigados a conquistar o impossível novamente.

Para alguém de alto nível se manter na ponta é extremamente difícil, quase uma utopia. A história conheceu poucos desse quilate, tão poucos que, de cabeça, podemos lembrar seus nomes. E, se para estes já é tão complicado, imagine para nossos improváveis campeões. Mas não aceitamos menos do que um dia já nos entregaram.

Após sucessivos insucessos, da mesma forma que somos tomados pela euforia das vitórias, temos prazer com o escárnio e a zombaria àqueles que alçamos à condição de ídolos. E assim,  sem dó nem piedade, com a ajuda da mídia, inclemente, derrubamos as enormes estátuas que um dia construímos.

Nosso país se assume subdesenvolvido, porém, paradoxalmente, repudia veementemente as derrotas. Pódios, desde que no lugar mais alto; medalhas, somente as douradas. Somos derrotados por natureza, mas refutamos o derrotismo.

A propósito, ontem Robson Conceição ganhou a medalha de ouro no boxe.

 

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