Cidade dos Deuses

Por Valdez Gomes

 

A história é parecida com a de milhões de outros tantos. Beira o clichê, de tanto que já ouvimos e nos emocionamos. Marta, Paula, Daiane, Cristiane, Mariana, Rafaela… Um exército de meninas e meninos, ali, a espera de uma oportunidade daquela mão amiga estendida. Mas por onde anda toda essa boa vontade nesse hiato de 4 anos?

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A comoção em torno da menina, que há quatro anos era execrada por um mal resultado em Londres, é algo que me causa pena… Pena de nós mesmos. Mais do que qualquer outro povo, nós, brasileiros, somos imediatistas. Não aceitamos ficar atrás, nem mesmo de gente melhor preparada que os nossos compatriotas.

Mas, em contrapartida, o que estamos fazendo para que o próximo hiato seja mais dourado? O que estamos plantando para ser colhido em Tóquio? Empresários pseudo-entusiastas hibernarão daqui a 3semanas e só voltarão a acordar às vésperas de carimbar o passaporte para o Japão.

Quem por ventura conseguir, com muito suor e sacrifício, por no pescoço uma medalha, talvez consiga algum qualquer para se preparar com um pouco de dignidade, mas, e o restante? Aqueles que bateram na trave, caíram ou foram derrotados pela desigual falta de estrutura, como ficam?

Se continuarem na luta, já será uma grande vitória, porém, como diz o ditado, “ninguém é forte sozinho”, nem mesmo os que praticam esportes individuais. Alimentação, viagens, material, staff não são de graça. E, mesmo quando são, quem bota comida na mesa de toda essa gente envolvida? Atletas e treinadores também pagam conta de energia, água, moradia…

No Brasil somos todos olímpicos, mas, de quatro em quatro anos. Nesse intervalo, “vá trabalhar vagabundo!”; “você é a vergonha da sua família!”; “larga de ser besta e vá pegar uma enxada!”.

É assim que são vistos os macacos que fracassam em Londres, Pequim e no Rio.

O esporte por aqui é visto como hobby, vagabundagem, preguiça de estudar. Lá fora, os milionários jogadores da NBA são incentivados a seguir em frente, dentro de alguma faculdade, jogando e estudando. Na Rússia, o Governo financiou um projeto de doping; trapacearam, porém, por mais absurdo que possa parecer, até ali eu consigo ver interesse público nas pessoas daquele país. Nada louvável, mas ali não estão desviando verba da saúde pública para paraísos fiscais. Certo ou errado, existia um projeto.

Por aqui é cada um por si e as críticas são contra todos. E, enquanto isso, a cada ciclo olímpico, dezenas de novos Phelps nadam de braçada, deixando-nos para trás.

O recordista de medalhas é, sem dúvida, um monstro. Mas Rafaela Silva, a macaca, a vergonha da família, é uma monstruosidade, um exemplo (mais um) a ser seguido. Obrigado, Rafa! Muito obrigado família Silva, por enxergar e acreditar no potencial dessa menina!

Da Cidade de Deus do Rio de Janeiro para a Cidade dos Deuses do Olimpo, Rafaela Silva é a mais nova menina dourada do pedaço.

Parabéns, Rafa!

rafaela ouro

 

 

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