De Dondon a Dindin

Por Valdez Gomes

pele

Houve um tempo em que nome de jogador de futebol era Dadá, Dé, Didi e Dondon. E nessa época a bola era de capotão, pesava cerca de 450gramas que, em dias chuvosos, eram substancialmente acrescidos a outros tantos, pois, o couro, material que confeccionava essa bola, absorvia a água do campo.

Quem mais sofria nos dias chuvosos eram os goleiros. Estes carregavam consigo a pecha de que “onde pisavam não nascia grama”. Os coitados não usavam luvas e, por conta disso, não raras eram as vezes em que jogavam com os dedos fraturados.

As chuteiras eram inteiramente negras, e isso talvez fizesse com que os jogadores quase não caíssem com os esbarrões, inerentes a todo esporte de contato físico.

Substituições não eram permitidas, preleções eram conduzidas por guias espirituais, o bicho era pago em espécie – animal mesmo. Cabras, galinhas, porcos… essa era a moeda corrente. E, inclusive, vem daí o nome da bonificação extra concedida por vitórias.

As entrevistas pós-jogo eram realizadas no calor do vestiário, com jogadores ainda de toalhas e corpos com pelos em profusão e à mostra; o máximo de vaidade que se via era o gel Gumex, que alinhava as longas madeixas; ou o pente-garfo-de-metal, que aprumava as vastas cabeleiras black.

Época em que a rapaziada que entrava em campo eram apenas boleiros, de corpos naturais, sem excessos, trabalhados à base de polichinelo, cigarros e cerveja. Bons tempos eram aqueles…

Hoje em dia, na era do business, tudo gira em torno do dindin. Os boleiros viraram atletas, seus empresários, geralmente, os batizam com nomes compostos ou sobrenomes… é um tal Roger Medeiros pra cá, Rogério Pedro pra lá. Tudo isso deve ser para evitar que seu produto não seja confundido com um homônimo.

pogba

A bola permanece com o mesmo peso, contudo, hoje são impermeáveis, high-tech e indomináveis, talvez por conta das estilizadas chuteiras futurísticas que hoje vestem os pés dos jogadores. Aliás, tenho pra mim que toda essa evolução tecnológica das chuteiras seja o principal motivo dos jogadores não conseguirem permanecer de pé por muito tempo; devem ter investido em design e esquecido de trabalhar a aerodinâmica. É muita cor e desenho para os pés da galera, isso deve pesar na hora de cobrar um pênalti…

Se há uma coisa de legal nos tempos modernos, é a evolução dos guarda redes – como são chamados os goleiros em Portugal -. Antigamente a fragilidade técnica era gritante, contudo, de uns tempos pra cá, os goleiros aprimoraram suas técnicas e pode-se dizer que viraram o jogo. Nos tempos de Dondon, pênalti era sinônimo de gol, mas agora o buraco é mais embaixo, ou melhor, a distância entre a glória e o buraco é bem menor para os cobradores de penalidades.

Hoje o bicho é pago por título conquistado, mala branca é proibida e mala preta dá cadeia.

O vestiário é lugar-comum de palestrantes e seus discursos motivacionais. Gente que sequer curte futebol, inala mas não respira da mesma atmosfera que os cerca.

Certa vez Pelé disse uma coisa interessante:

“Na minha época, jogador sonhava ser cantor, e cantor ser jogador de futebol”

Isso é coisa do passado, Pelé. Agora é uma realidade. Não faz muito que o genial Ronaldinho Gaúcho emplacou um megassucesso nas baladas sertanejas e dia desses lançou seu segundo hit. Mal posso esperar para trocar de estação de rádio…

Provavelmente, essas composições surgiram em meio às peladas das “estrelas” que preenchem o vazio do fim de ano futebolístico.

A quinze minutos de começar mais uma partida, a estrela da companhia faz seu checklist: chuteiras bicolor (pé esquerdo verde-limão e direito de cor púrpura) da marca felina, devidamente calçada; caneleiras com a foto impressa da mulher e filhos; calção e camisa, de numeração menor para fazer aparecer o volume dos músculos do corpo minuciosamente depilado; cabelos milimetricamente em desalinho para dar o ar de casualidade, tudo certo.

Mas espere, alguma coisa está fora do padrão: momento de tensão, chama o “parça” às pressas e manda buscar correndo o Moysés; minutos depois, com cara de preocupado, Moysés, portando sua maleta, entra no vestiário e pede para ficar à sós com a fera; antes que o jogador diga qualquer coisa, o profissional interrompe o silêncio e grave dispara:

“Não precisa falar nada, você andou mexendo nessa sobrancelha. Deixa eu usar um corretivo nisso”

Da porta do vestiário, o “professor” iletrado tenta ouvir o que se passa lá dentro, pois teme pela ausência de seu principal jogador. Para alívio de todos, Moysés decreta que o astro vai para o jogo.

Inovações tecnológicas são bem-vindas, desde que não ultrapassem a linha imaginária do que move o futebol: a paixão.

Em tempos em que dindin ficou mais importante que o dom, vale lembrar o slogan de uma marca de refrigerante que dizia:

“Imagem não é nada, sede é tudo”

Fazer dinheiro é importante, mas imprescindível mesmo é não esquecer a essência do jogo e perpetuar a paixão por ele. O futebol agradece.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s