Um Domingo Qualquer

Por Gabriel Gomes

 

Éder

 

É Domingo na zona norte.

A dona de casa com seu carrinho de feira desce as escadas com a destreza de uma jovem na passarela; o aposentado com seu jornal debaixo do braço e seu bilhete da Mega-Sena, pronto para ser conferido, ruma para o carteado no centro da praça que já atrai a atenção de alguns curiosos; o açougue do seu Peçanha anuncia a promoção da alcatra – o açougueiro que você conhece desde criança, com a mão enegrecida pelo tempo e pelo sangue desprendidos pelos cortes acidentais e propositais, embala os bifes pra viagem no jornal velho da semana, finalizando com aquele barbante em extinção; no bar do Haroldo a cerveja na mão é sempre a mais barata, desde que esteja gelada. Ainda estamos no Brasil que meu avô me apresentou anos atrás.

A algumas quadras dali um menino despertou junto com as primeiras luzes tatuadas no chão de uma tímida rua sem saída. O asfalto recortado e irregular sustenta o relvado de um time de pelada conhecido como Quaresminhas F. C., fruto de uma geração desacreditada, que nasceu com mais habilidade nos dedos e menos nos pés.  Tradicional nas ruas do subúrbio, parava os carros da avenida principal com uma corda, visando arrecadar fundos para um jogo de camisas e, com sorte e algumas moedas, um cachorro quente no Romeu. Era um dia incomum e especial na vida do menino. Cristiano e amigos de rua estavam na final do campeonato do bairro.

Cristiano era moleque bom de bola. Desde cedo frequentou todas as categorias do time de futsal do Bonsucesso, o “Leão da Leopoldina”, até um olheiro atento levá-lo para o Botafogo de Futebol e Regatas e torná-lo celebridade em seu modesto bairro. O garoto, criado pelo avô, atraía uma legião de fãs, de aposentados a anotadores de jogo do bicho. Contudo, o prodígio da cercania onde morava cultivava a fama de “pipoqueiro” quando vestia as cores do Quaresminhas FC.

Quando tinha jogo era uma celeuma e uma balburdia na rua sem saída, todos reunidos para ver Cristiano, que raramente correspondia às expectativas dos curiosos que se acotovelavam atrás dos gols delimitados pelas chinelas dos meninos. Seus amigos de infância, orgulhosos, esperavam o ano inteiro para jogar junto ao futuro craque no campeonato anual de ruas do bairro, mas sempre voltavam para casa derrotados e decepcionados.

O menino era extremamente vaidoso e suas madeixas eram as primeiras vítimas das homenagens após nova derrota. Cristiano não conseguia brilhar no time em que deu seus primeiros chutes. Aquela final era a chance definitiva de redenção. Ganhar o respeito da sua gente e dos seus amigos de infância.

A trajetória do time dentro da competição foi tortuosa, recheada de empates e disputas de pênaltis, mas, com uma tabela favorável, conseguiram alcançar a final pela primeira vez no histórico campeonato do bairro. Cristiano finalmente fez um bom campeonato, com gols decisivos e atuações dignas do que dele se esperava. Sua estrela finalmente começava a brilhar no Quaresminhas FC.

A final seria jogada na Avenida Paris, tradicional no bairro, que ficava parcialmente fechada aos domingos como área de lazer. O anfitrião era o adversário da final, time formado pela molecada que jogava na base dos principais clubes da cidade. Teríamos Quaresminhas FC x PutaqueParis AC, uma final que ninguém esperava.

Naquela manhã, respeitando o ritual pré-jogo, Cristiano abriu o seu blog preferido (https://pitacosacidos.com.br/) e leu uma crônica chamada “O Menino Francês”. O texto o fez refletir como aquele jogo era importante para ele e para todos as humildes famílias que moravam na sua rua. Seria um momento de alegria, de fuga da realidade sofrida e financiada por R$ 880,00 por mês.

Chegara a hora.

Na manhã de domingo surgiram desocupados de toda a parte; até um empresário chinês, famoso pelas pastelarias no bairro. A avenida que transboradava pessoas durante a semana estava cheia no domingo também. Chinelos afastados pela contagem de 6 passos descuidados de um tio solteiro que apitaria a peleja estavam simetricamente dispostos. Times em campo. O hino nacional foi conduzido por uma banda de varizentos aposentados que marcavam presença nas sociais dos jogos do Bonsucesso e nas inaugurações de lojas de R$1,99 e Hortifrutis. O clima era de festa e expectativa

Rolou a bola, todos os olhares miravam o camisa 7 dos encarnados da Travessa Quaresma. O gol do adversário era questão de tempo e bom senso.

A bola insistia em não chegar, então Cristiano resolveu buscá-la no campo de defesa. No primeiro lance em que a recebeu, o pródigo rapazote adiantou-se e a dividiu com um viril garoto vitaminado. Todos escutaram o choque, e a Zona Norte da cidade ficou em silêncio por um momento. Ninguém queria acreditar, mas era o fim de algo sonhado por muitos. Cristiano não se conformava. Entre lágrimas e soluços, não acatou a decisão do Seu Caetano, aplicador de injeções da farmácia da praça, que decretou a lesão no joelho. Várias tentativas de volta e insubordinações depois encerraram de vez a partida para o vaidoso garoto. Acabou.

Só restava para o gajo torcer e apoiar o time no alto do muro onde ficavam os reservas e palpiteiros. Uma chance finalmente seria dada ao esquálido e amargurado Éder, filho mais novo da casa mais pobre da rua – seu pai era vendedor de balas no trem e sua mãe lavava roupas no tanque de suburbanas madames emergentes.

Jogo amarrado, poucas chances para ambos. O tempo regulamentar acaba. Cristiano sente que poderia ter decidido o jogo se tivesse em campo, mas, cumpre à risca sua liderança, orientando os amigos e esbravejando contra a arbitragem.

Prorrogação!

Naquele momento, os Quaresminhas já sairiam de lá campeões, seja pelo feito de terem chegado à final, seja pela partida briosa que todos jogavam sem o seu maior craque. Mas os deuses do futebol resolveram fazer das suas. Tempo extra rolando e todos naquele perímetro de subúrbio apostavam que as penalidades eram inevitáveis. Até que….

… após uma roubada de bola no campo adversário, a bola cai nos pés do perdido Éder. Ele tem a bola dominada fora da área de frente pro gol. Um defensor resolve dar o combate e fica pra trás, Éder olha para o gol e enxerga ao lado seus pais fitando-o com extrema delicadeza e ternura. Dali em diante, um chute é desferido e a bola morre cuidadosamente no fundo das redes imaginárias. A metros de seus pais.

Acabou. Todos invadem o asfalto e querem tocar no menino que antes nem conheciam e passava despercebido pelos cenários daquele bairro. Éder e Cristiano cruzam seus olhares, ambos carregados por todos que ali estavam.

Presentes naquele Domingo, a família de Éder tinha esquecido como era sorrir e comemorar. Cristiano refletiu que Éder e sua família precisava muito mais desse título do que ele e seus fantasmas.

 

 

 

 

 

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