Lado B

Por Davi Miranda

 

CASA

 

Depois da padaria havia a rua E. Nessa esquina, se virasse à esquerda, dava no Colégio Batista e, caso dobrasse à direita, saía numa pequena ladeira. Lá no alto era a casa do Erlizinho, e margeando seu muro até o fim chegava-se à rua B. É nela que nossa história se passa.

Tinha pouco mais de 20 casas. O fato da rua não ter saída proporcionava às famílias um ambiente tranquilo e pouco movimentado. De terra batida e pedras soltas, vez ou outra um filete de água escorria rua abaixo: eram os quintais sendo lavados, acompanhados do barulho das piaçavas raspando o chão molhado.  A maioria das pessoas vivia ali há décadas, em harmonia, e os adultos eram chamados de tios e tias pelas crianças vizinhas.

Dona Efigênia, idosa e obesa, não tinha pique para se levantar, então nos dava liberdade para abrir o portão na hora que quiséssemos. Seu quintal era de concreto, contudo, nele havia uma fenda no chão, de onde saíam as raízes de uma goiabeira que ficava carregada de janeiro a março.

A mãe do Gui morava na casa verde. Ela era legal, mas tinha tanto medo que ele se machucasse que, mal a gente começava a correr, mandava-o entrar. O vovô era muito amigo de seu pai.

O Jonas tinha os brinquedos mais bacanas, sempre chegava com novidades. Ir à sua casa era a maior felicidade do mundo!

Seu Cosme morava ao lado dele, numa casa de muros enormes. Vivia sozinho, saía pouco, e quando o fazia voltava logo. A gente nunca entrou lá, com medo dos cachorros. Ele, muito bondoso, ficava na porta, com um caderno, fazendo origamis pra turma.

E era assim, de um lado e de outro havia pessoas que não só acrescentavam, como também eram extensões de nossas famílias.

Eu, meus pais e irmãos morávamos na parte de cima do sobrado que dava fim à rua. A vida era simples, mas boa. Que saudades eu sinto…  ia à escola, almoçava e depois brincava até a hora de dormir.

A turma era grande. Bolávamos todo tipo de brincadeiras e depois, quando a tarde caía, a maioria das famílias se sentava às portas para prosear.

Domingo a festa era completa, pois quase todos estavam em casa. Além de frango com macarrão, também tinha Coca-Cola. Depois, para ajudar a digestão, a molecada se acabava de jogar taco ou futebol. As ripas de madeira serviam de bastões; os pares de chinelos, traves.

Era comum que as bolas caíssem nas casas vizinhas. Na de dona Efigênia não havia problema, pois o portão ficava aberto e nós entrávamos quando queríamos; seu Dair, que era ourives e tinha uma oficina em seu quintal, não se incomodava; dona Letícia, da casa rosa, era a única mal humorada e, aos berros, jogava a bola sobre o muro. Ruim mesmo era quando alguém chutava longe e ela rolava ladeira abaixo.

Num feriado desses, o Almir, da Rua E, chegou com uma bola de vôlei novinha; demos logo jeito de montar uma partida. Atravessando um barbante pela rua, com uma parte amarrada no poste e outra na grade da casa do Gui, tínhamos a rede.

Inspirado nas viagens intergalácticas que Bernard nos proporcionou naquelas Olimpíadas, emendei um saque Jornadas nas Estrelas. Saiu como era de se esperar, bem torto: subiu, triscou no poste e rolou pra lá dos muros da casa de seu Cosme.

Foi a primeira vez que a bola caiu em seu quintal e ele não a devolveu: tinha levado os cães para vacinar. Ergui os olhos do chão e dei de cara com os do Almir que, alterado, não aceitou consideração alguma e exigiu que eu fosse buscá-la. Nunca havíamos entrado na casa do seu Cosme, afinal, seus cães eram extremamente agressivos. Pressionado, tomei coragem e resolvi arriscar.

Tentamos pé-pé, mas em vão, o muro era muito, muito alto. O portão não cedia, possuía trancas seguras. Queríamos entrar, mas sem chamar a atenção dos adultos. Até que resolvemos tentar na lateral, pelo quintal da dona Efigênia, ao lado do dele. O Edmilson buscou uma escada na garagem de casa. Firmaram na parede e eu subi. Lá do alto a rua era muito mais bonita.

Preocupava-me que alguém me visse naquela situação, invadindo a privacidade alheia. Sentia um misto de medo e vergonha, e aquilo foi embrulhando meu estômago. Comecei a suar frio e por pouco não caí. Sentindo que eu titubeava, perguntaram lá de baixo se eu estava com medo. Respirei fundo, agarrei-me ao muro e resolvi seguir em frente.

À minha direita o tamanho do quintal do seu Cosme impressionava. Além disso era mal cuidado, com frutas caídas das árvores e diversos objetos espalhados. Procurei um lugar para descer mas não achei. Sentado, raspando a bunda no muro, fui rodeando a casa, procurando um ponto favorável.

Mais ao fundo, vi uma construção de alvenaria em que poderia por os pés, era onde os cães ficavam. Segurei no topo do muro, deixei meu corpo escorregar até que se estendesse por completo e, quando a ponta dos dedos tocou a laje do canil, soltei-me. Caí em cima das casinhas, e dali dei um pulo pro chão. Ainda agachado, passei um tempo olhando aquelas grades, e só de imaginar os latidos meu corpo se arrepiou.

Com o coração acelerado, dei-me desesperadamente a procurar a bola naquele lugar enorme. O chão, talhado de folhas secas, confundia minha visão. Comecei a vasculhar o quintal, andando e olhando por todos os cantos, mas nada. Até que sussurrarem meu nome. Fiquei paralisado, não sabia o que fazer. Chamaram novamente. Será que seu Cosme chegara e alguém tentava me avisar?

Foi quando olhei pra cima e vi o Almir, que gritou “anda logo!”. “Seu Cosme chegou?”, indaguei, mas ele abanou a cabeça que não. Respirei aliviado. Apressado, comecei a correr, e cheguei ao lado oposto da casa. Lá estava a bola, junto ao tronco de um pé de jambo. Meu coração sossegou. Com um chute mandei-a de volta pra rua, e deu para ouvir as batidas secas quando deu as primeiras quicadas lá fora.

Subi novamente no canil, e quando me agarrei ao muro para me erguer de volta, ouvi uns barulhos estranhos. Olhei para cima, mas não havia ninguém. Ajeitei-me novamente para subir, e outras pancadas vieram. Não eram de fora, pareciam vir de baixo.

Ignorando o fato de que seu Cosme chegaria a qualquer momento, desci para averiguar o que era. Abri a porta do primeiro canil e nada; apenas o mau cheiro de urina e uma vasilha de água pela metade. Abri o segundo e o panorama era o mesmo: dejetos de cães e vasilhas. E na terceira casinha a mesma coisa. Mas as batidas se intensificaram. E vinham do quarto canil.

Ao abrir a portinhola de ferro, ouvi outra batida vinda de dentro. Resolvi entrar. Agachei-me, e naquele local escuro senti uma estrutura de ferro sob os pés. As batidas recomeçaram e não pararam mais. Amedrontado, senti um calafrio subir pela espinha e entrei em desespero. Vi uma lâmpada sobre a cabeça e o interruptor à minha esquerda. Liguei-o.

Havia um alçapão sob meus pés, trancado fortemente. Percebi uma portinhola, e com certo esforço consegui girá-la. Horrorizado, revelou-se a mim um rosto com tanto sofrimento que seria impossível descrevê-lo. Era uma menina, desesperada, esforçando-se para se comunicar comigo, pulando com todas as forças, chorando e gritando. Separados por um espesso vidro eu não podia tocá-la e tampouco conseguia ouvi-la.

Saí dali nem sei como. Nas investigações descobriram coisas terríveis sobre seu Cosme, e ele ficou todos esses anos preso. Amanhã será colocado em liberdade condicional, e por isso essas lembranças me voltaram com força. Não que eu passe mais de dois dias sem elas, mas ultimamente não consigo pensar em outra coisa.

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Uma resposta para Lado B

  1. Jonathan disse:

    Texto fantástico, Davi! Parabéns pelo talento com as palavras.

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