Maionese Camisa 10

Por Alan Parada

 

maionese

 

Experimente ir a um desses grandes restaurantes fast food (McDonald’s, Burger King, Bob’s) e pedir maionese para acompanhar seu lanche.

Em alguns casos, vão te cobrar pelo sachê. Um valor “simbólico”, dirão alguns, mas vão te cobrar pelo o que antes era de graça e liberado. Em outros casos, vão negar.

Estão evitando a maionese. Isso é um absurdo! Estão tirando a maionese do campo de jogo.

Seus companheiros ketchup e mostarda ainda estão lá, liberados à vontade e de graça! Sem nenhuma desculpa ou problema para te oferecerem.

Ontem estava lanchando e fiz essa reflexão.

A maionese é o camisa 10 do futebol. O 1 do Zagallo. O enganche. O meia de ligação. O craque.

Num futebol onde cada vez mais se joga pelos lados do campo, em velocidade absurda, o cara que pensa o jogo entrou em extinção. Como a maionese.

As desculpas para a retirada da maionese são inúmeras, como “nossos lanches já vem com esse molho”, ou ainda, “é melhor para a saúde não comer”; assim como a desculpa para a falta do 10: “O campo ficou menor”, “há menos espaço” “não tem lugar para este tipo de jogador no futebol moderno”.

E te oferecem cada vez mais jogadores que correm e não pensam, atacantes que voltam para marcar laterais, meias que são a legítima “enceradeira”, girando e passando a bola para o lado. São o ketchup e a mostarda.

Eu sou fã dos dois. Maionese e enganche.

Acho que dão um toque especial na mesmice que se tornaram os sanduíches e os jogos de futebol. E fico triste quando vejo uma lanchonete ou time sem oferecer esse clássico acompanhamento.

Puxem na memória a última assistência vertical para o atacante entrando pelo meio, cortando a zaga; aquele tradicional “faz e me abraça”. É artigo muito raro. Estamos vendo uma chuva de gols de cabeça, em cruzamentos da intermediária ou de belas batidas de fora.

Os caras que poderiam fazer essa função de jogar com o cérebro estão sendo recuados, jogando cada vez mais longe da área adversária para poder “qualificar o passe” ou enfiar bolas para jogadas de ultrapassagem rápida dos laterais.

Quantos segundos volantes não seriam ótimos meias de ligação se, antes de tudo, não tivessem a obrigação de marcar?

Fico aqui imaginando como seria se esses caras tivessem a obrigação de marcar a saída de bola adversária, o brucutu do lado de lá. Uma roubada de bola e… Saco!

Por que, Deus do céu, colocar esses caras perto da própria área, se eles podem render muito mais estando perto da área adversária? O jogador não precisa ser rápido, habilidoso e driblador para ocupar essa faixa de campo. Precisa ser inteligente, para atacar na hora certa, defender quando necessário e distribuir a bola, no último passe, pelo meio. Por qual motivo, razão ou circunstância é necessário que o cara que tem mais qualidade no time entregue a bola para outro que só corre, procura a ponta e cruza bolas na área?

Não me levem a mal, não sou contra os laterais. Apenas acho que deram importância muito grande para os que correm, ao invés dos que sabem trabalhar a bola. E, convenhamos, também estamos carentes de bons laterais no mundo.

Lembro da máxima dos mais antigos, que diziam que “quem deve correr é a bola”, e vejo hoje jogadores desesperados em correr mais que ela, em voltar correndo, como se tivesse um cracudo da Central lhe roubado a carteira.

Imagino como Ganso deve se sentir.

Gansos são espécies em extinção (o jogador, não o animal). Chamam-no de preguiçoso, dorminhoco e outros tantos “adjetivos”. Concordo que o rapaz poderia ser um pouco mais do que é, mas, é inegável que o jogo é diferente quando a bola passa por seus pés. Parece que o Mundo gira um pouco mais devagar, os espaços se abrem e as bolas abrem defesas como o cajado de Moisés abriu o Mar Vermelho.

Lembro de alguns jogadores que foram isso tudo, e vejo também que foram poucos os que tiveram destaque inegável, principalmente na seleção.

Alex, Djalminha, Diego e os gringos Pet e Conca – só para ficar em 5 recentes – além do já citado Ganso.

Podem ser chamados de craques, pois suas qualidades são inegáveis. Mas nenhum deles obteve destaque nas seleções (o argentino sequer foi convocado).

Num futebol cada vez mais gourmet, estão tirando os nossos molhos tradicionais e nos enfiando goela abaixo novos conceitos gastronômicos.

Tirando nossa querida maionese e trocando por passes laterais e chutões. Substituindo nossos camisas 10 por pasta de ricota com molho agridoce.

E assim, segue o jogo, com menos maionese e menos camisa 10. Mas sempre gostoso, pois somos fanáticos por isso.

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