O Menino Francês

Por Gabriel Gomes

 

menino

 

Gastón é só mais um menino que vendeu sua alma ao futebol. Nascido no mês em que o futebol francês atingiu o degrau mais alto do esporte, o bebê foi batizado por Zinedine Zidane e ungido pelo suor da comemoração de 3 gols no altar/palco de uma final de copa do mundo. Dezoito anos se passaram e a vida de um homem sem conquistas fica vazia. O moleque de Paris cresceu distante de dias como aquele.

Sua infância e adolescência foram construídas à sombra daquele julho de 98, marco da maior glória que um time de futebol pode alcançar. Apesar do clima de desconfiança envolvendo escândalos de arbitragem e polêmicas no jogo final contra a forte seleção canarinha, críticas à convocação de jogadores filhos de imigrantes e dúvidas sobre a capacidade técnica do time, os fatos rezam que, apesar de algumas verdades, acompanhamos uma seleção compromissada com a vitória e liderada por um talento raro, daqueles que nascem com um dom no lugar de um coração.

O tempo passou e sua infância foi marcada por cicatrizes profundas, causadas por uma tal cabeçada, e manchas de imaginação sobre a idolatria que tantos tinham por aquele camisa 10 calvo e de pernas astutas. A memória é uma ilha de edição.

Os dias eram cada vez mais nublados.  Os anos passavam como se fossem dias e os dias  como horas.  A falta de apetite do menino deixava a mãe preocupada. A unica coisa que alimentaria Gastón seria uma seleção talentosa e vencedora. O sonho e os desejos de uma criança devem ser respeitados.

Em um dia acinzentado e sem alegria, dentro das paredes que cercam a maior escola publica da grande Paris, Gastón e sua inseparável bola de meia eram irmão gêmeos na aparência e no desolamento. Tudo mudou no momento em que um menino negro, esguio, com a pele manchada pelo tempo e ligeiramente mais velho, aproximou-se  dos dois. A distância que estabelece o limite de segurança já tinha sido rompida.

Silêncio.

A troca de olhares rapidamente liberou uma inundação de certezas e esperanças. Gastón não teve dúvidas e sabia que sua melhor amiga precisava partir para que seu sonho fosse realizado. Então, num belo gesto, singelo e sincero, sua mão estendeu aquele tesouro em direção ao menino que mal sabia falar. Ambos sabiam que esse dia mudaria a vida dos dois garotos para sempre. O novo dono da bola de meia tinha um nome meio engraçado: Pogba.

Mercy, Gastón.

2016, o mês de julho chegou. Gastón vai comemorar um título novamente em casa. A festa está devidamente armada, as ruas estão enfeitadas e os convites foram enviados; há gente vindo de toda a Europa. Todos ficaram sabendo da festa preparada para o menino, e o mundo olha pra França.

Uma nova geração cresceu junto a Gastón e, das ruas dos subúrbios de Paris aos desertos de Dakar, novos artistas foram apresentados . A renovação aconteceu e finalmente o cidadão que fala o idioma francês conseguiu aposentar Zizou. O talento e as expectativas foram transferidas para um tal menino negro e esguio, agora ídolo e jogador da Juventus, devidamente apresentado para o mundo em 2014 nas terras abençoadas da ilha de Vera Cruz.

Será um típico e tradicional rito francês e os vinhos da festa foram selecionados com maestria pelo enólogo Didier Deschamps. A adega estará recheada de estilos e aromas. A vanguarda é feita com uma mistura da uva mais jovem a uma uva bruta e marcante; os rótulos respondem por Antoine Griezman e Olivier Giroud. Já a safra intermediária foi colhida da vinicula mais produtiva com notas de talento e genialidade que serão as protagonistas do evento; os rótulos são N’golo Kante, Blaise Matuidi, o favorito e popular Paul Pogba e o raríssimo Dimitri Payet. Já a retaguarda não corresponde às melhores garrafas e a experiência, por vezes, pode não agradar os degustadores; as uvas jovens da região não estão em uma safra muito confiável, mas as apostas foram lançadas: Adil Rami, Laurent Koscielny e Bacary Sagna formam o trio de garrafas produzidas com o vinho verde da região, portanto, possuem um paladar nem sempre garantido. Para completar a bebedeira, dois bons barris envelhecidos foram adquiridos das vinícolas mais antigas da França; teremos os mundialmente conhecidos Patrice Evra e Hugo Lloris.

O menino, agora um homem, está ansioso para receber logo seu presente e beber a Champagne da vitória. Merecido presente para alguém que trata o futebol com dignidade e amor incondicional. Uma bela forma de completar 18 anos.

Calma criança, todos sabemos que o título ficará em casa. Mas, antes temos 51 jogos para assistir.

Boa Eurocopa a todos.

Allez le bleus

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2 respostas para O Menino Francês

  1. Valdo disse:

    Putz…
    Talvez para muitos esta seja a “mágia” do futebol, o tal esporte imprevisível, onde nem sempre o melhor ganha…
    Cada vez mais a possibilidade da “zebra” nos demais esportes começa a desaparecer e no entanto no universo da FIFA a cada dia “esbarramos” com uma.
    Nem sei se posso considerar Portugal desta forma, mas talvez os deuses do futebol desejavam ajustar o ocorrido naquele já longínquo 04 de Julho do ano de 2004, quando a Grécia saiu vencedora!
    Às vezes a “sorte” e da caça, outras do caçador, seja lá quem for a “caça” no seu ponto de vista!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: UM DOMINGO QUALQUER | pitacosacidos

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