Etec(H)étero

Por Valdez Gomes

armario

 

Repórter:

– E porque você resolveu falar agora?

Entrevistado:

– Por que vi a repercussão da entrevista de meu amigo, Paulo Bicudo, e achei que também deveria vir a público contar um pouco da minha história. Até para que ninguém saia com a imagem arranhada depois de tudo o que ele falou. Não que sejam inverdades, mas têm coisas ali que precisam ser bem definidas para que não haja interpretação equivocada.

– Começamos a gravar quando você estiver pronto.

– Eu já nasci pronto, filha. Ainda não estão gravando?

– Ok, então vamos lá. Gravando!

– Num dado momento da entrevista do Bicudo – ele ganhou esse apelido no vestiário, logo depois de voltar da França, misturando os sotaques e fazendo caras e bicos tentando me ensinar o pouco que sabia – ele cita uma passagem que foi crucial para levarmos o título Paulista daquele ano. A discussão que ele teve com o “Pastor” não dividiu o vestiário ao meio. Na verdade, rachou em três partes de tamanhos diferentes: de um lado o “Pastor” e seu rebanho, incluindo o tal membro da comissão técnica que protagonizou aquele escândalo; no meio ficaram o técnico e sua equipe e de outro, estávamos Bicudo, Moysés e eu.

Tínhamos o grupo dos “Escolhidos”, os “Alheios” e nós, os “Dissidentes”, formado por um herege, um macumbeiro e eu, o gay infiltrado.

Desconcertada, a repórter faz um sinal de pausa, interrompe a gravação e indaga:

– O senhor tem certeza de que quer se expor dessa forma?

– Menina, eu já passei muito tempo enclausurado dentro desse armário, esse cheiro de mofo está me matando. Vamos em frente!

Prosseguindo…

E é sobre isso que eu queria falar. Sobre a minha condição de homossexual no universo machista do futebol. Tem ideia do quanto eu sofri por não poder ser quem eu era? Ali, naquele mundinho fechado, você pode ser ladrão, drogado, alcoólatra, adúltero, corrupto… tudo é aceito, qualquer desses “delitos” têm perdão. Agora, experimente se declarar gay. Sua carreira acabaria em dois tempos. Assumir sua orientação sexual diferente do “permitido” era assinar sua aposentadoria compulsória.

– Você temia por represálias?

– Querida, temia por tudo! Minha carreira, família, amizades construídas nos vestiários, patrocínio… todos sabiam, mas ninguém tocava no assunto, era quase um dogma. Eles fingiam que não sabiam e eu que passava despercebido.

Atualmente as coisas estão diferentes. Sou do tempo em que perfume para homens era o “Avanço” e o slogan era, “você usa Avanço e elas avançam!”. Nos dias de hoje tem até marca de cosméticos, que antes não se posicionava, propagandeando que o lance é aceitar as diferenças e todas as formas de amor. Loja de magazine estimulando que se experimente de tudo, que seja livre. No meu tempo, o legal era ouvir o sambista cantando que iria “quebrar cinco dentes e quatro costelas” de sua amada. Outro dia um amigo me mostrou um samba de um garoto lá do Rio que fala em “tanto faz se é ele com ele ou sem ele, ou se ela com ela”.

Quem me dera tivesse, naquela época, esse pessoal para ajudar a levantar minha “pesada” bandeira colorida… Quantas vezes fui a festinhas de jogadores, regadas a bebidas e mulheres nuas. Perdi a conta do número de desculpas que tive que inventar para evitar tantas outras.

Por sorte, encontrei uma pessoa amiga dentro do vestiário, o Bicudo, que me livrou de várias enrascadas; ele sabia da minha opção, mas sempre me respeitou.

– Passou por algum constrangimento por conta de sua sexualidade?

– Sim. Certa vez, criou-se uma celeuma, ou como dizem os meus, um bafão, por minha causa. Um jogador cismou que eu estava olhando para ele na hora do banho. Francamente! Se ainda fosse um bofe bonito, mas aquilo?! O fato é que rolou um motim e alguns jogadores bateram o pé e disseram que só entrariam em campo se eu não usasse o mesmo vestiário que eles.  Pra variar, Bicudo saiu em minha defesa e Moysés fez coro. O clima ficou quente. O técnico, que não era bobo, tratou de por panos quentes, afinal, era eu quem fazia os gols para o time e os dirigentes não ia ficar nada satisfeitos se soubessem da minha barração. Afinal, investiram uma boa grana na minha contratação e no contrato não havia cláusula que proibisse meus instintos de escolher A ou B para me relacionar. Conclusão: tiveram que me engolir.

Aí eu vejo hoje em dia a galera LGBT reclamando de direitos iguais… não que eles não tenham razão, no entanto, experimente ser gay dentro do futebol. Muitos jogadores ainda sofrem com isso. Ou você acha que não há jogadores de futebol gays?

Eu te digo, existem e não são poucos, mas, por prudência, não se revelam. Um dia, quem sabe, não saem também desse armário escuro?

Mas as coisas estão começando a mudar. Bandeiras e fronts de batalhas estão sendo erguidos na luta contra o preconceito – aqui fora. Dentro das quatro linhas ainda vale a máxima que meu pai sempre proferiu: “Futebol é pra homem! ”

 

 

 

 

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