Ascensão e Queda

Por Davi Miranda

 

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O mundo já viu os mais incríveis impérios surgirem: alguns, como o egípcio, duraram milênios; outros, não chegaram tão longe, mas conseguiram deixar profundas pegadas na história. Invariavelmente, todos ruíram. E com o Brasil a regra se confirma.

Subjugamos o mundo por quase cinquenta anos. De 1958 a 2002 demos as cartas: ganhamos cinco Copas do Mundo, Pelé se fez rei e essa terra pariu mais craques do que nossos times eram capazes de acomodar. Fizemos escola, ditamos o ritmo do jogo e nos tornamos marca tão forte que, Brasil lembrava futebol e futebol lembrava Brasil. Redesenhamos a invenção dos ingleses.

No esporte, lugar de disputa constante, as forças se rearranjam e tanto o sucesso quanto o fracasso, substantivos inquietos, alternam-se constantemente. Agora estamos na parte de baixo da gangorra. Os holofotes voltaram-se para outros lugares onde as poucas fotos, em vez de gloriosas, têm revelado apenas vexames.

Nossos times, mesmo com investimentos vultosos, não conseguem transformar centros de treinamento, estádios novos e caras contratações em bom futebol. Poucas são as partidas dos nossos campeonatos que não são arrastadas ou modorrentas, em contraste com o vistoso futebol jogado nos grandes centros europeus.

Na tarde do último 2 de abril assisti à brilhante vitória do Real Madrid sobre o Barcelona, no Camp Nou. Logo depois sintonizei no clássico carioca entre Botafogo e Flamengo. Na Catalunha, desfile de craques; em Juiz de Fora, show de horrores. Lá, um 2 a 1 de encher os olhos; aqui, um 2 a 2 para se esquecer. Pareciam esportes diferentes. Até mesmo uma partida entre os inexpressivos franceses Nantes e Lorientes é mais bonita de se ver.

Se parece desigual comparar o futebol europeu com o brasileiro, vamos olhar para o lado, tratemos das Américas. Tomando como base os jogos da Libertadores, nos últimos anos os times brasileiros têm sido deixados para trás por equatorianos, mexicanos, bolivianos e até paraguaios. Centros de menor expressão vêm nos colocando de joelhos, não só nos vencendo, mas apresentando um futebol mais organizado e vistoso. E a maioria dos investimentos não está lá, mas aqui. Os ricos somos nós, os eficientes, eles.

Tentando emular o sucesso de nossos vizinhos, cada vez mais contratamos jogadores sul-americanos. Só na Série A deste ano temos 53 jogadores estrangeiros. E os técnicos também começaram a aportar: com a chegada do português Paulo Bento já são 3. Para quem sempre se vangloriou de exportar craques é no mínimo estranho.

As confederações não se mostram interessadas em mudanças, pois, do jeito que está seus caciques continuarão bem servidos. E na outra ponta estão os presidentes dos clubes,  que em público afirmam ser contra tudo isso que está aí, mas, quando nos bastidores são incapazes de trabalhar juntos: basta o tilintar de algumas moedas para rasgarem qualquer discurso de unidade.

O povo, que não é bobo, distanciou-se da seleção e agora começa a se afastar dos clubes também. As médias de público, há muito claudicantes, chegaram a níveis risíveis: ontem, em Volta Redonda, pouco mais de 2800 pessoas pagaram para assistir a Botafogo e Fluminense pela principal competição do país – algo inadmissível para um clássico tão grande.

Os contratos de transmissão foram renovados com polpudos aumentos faz pouco tempo, mas, provavelmente, serão os próximos a minguarem. A matemática é simples: quanto menor o interesse das pessoas, menos os patrocinadores se dispõem a pagar. Quem quer ver jogos ruins?

O pior não foram nossos erros nas últimas décadas, mas não aprendermos nada com eles. Os europeus são bem sucedidos por serem europeus, ora bolas; os sul-americanos, que têm vencido ultimamente, puro fogo de palha; e nós, nós somos o único país com 5 campeonatos, e isso, por si só, é suficiente para nos trazer outros 5.

Muitos impérios, quando em ruínas, continuam agarrados aos velhos hábitos em vez de reformarem suas estruturas. Dão de ombros às mudanças que acontecem além das fronteiras e preocupam-se, sobremaneira, em manter as aparências. Eternamente embriagados pelas conquistas do passado recusam-se a rever seus conceitos, até que um dia a realidade desabe sobre suas cabeças.

 

 

 

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