O Escolhido

Por Valdez Gomes

 

100%

 

 Essa história se passou nos anos 90. Para preservar a identidade dos envolvidos, vou me abster de alguns detalhes. Nada que vá mudar o curso da história do futebol brasileiro, mas que certamente vai inquietar as mentes curiosas de jornalistas e torcedores…

– Já tá gravando?

– Ainda não…

– Então senta e dá o REC, pois eu tenho história!

Como todos sabem, quando fui jogar na Europa, já não era tão jovem assim. Na minha época, sair do país não era tão fácil como nos dias de hoje. Naquele tempo, a gente só saía quando o clube, que detinha nosso passe, achava interessante para ele. Não havia tanta mídia e divulgação, para despertar o interesse dos gringos, era preciso fazer chover aqui no Brasil.

Pois bem, da minha terra, Cuiabá até os pés da Torre Eiffel, rodei bastante. Conheci gente de toda espécie, cultura, religião, costumes e idiomas… Custei a entender o tal primeiro mundo. Mas com o passar dos anos, me habituei com os diversos povos e hábitos que transitavam por esse mundão.

Aprendi um pouco de alguns idiomas, conheci a culinária de vários países, da Escandinava ao tempero Mediterrâneo. Das crenças africanas até o Corão, passeei por algumas religiões e não me fixei em nenhuma delas.

Eu havia me tornado um “cidadão do mundo” ou como dizem hoje, um cosmopolita.

Então, depois desses anos em terras estrangeiras, resolvi que estava na hora de voltar. A proposta do Palmeiras chegava em boa hora. Aceitei, fiz as malas e “au revoir”, adeus velho mundo!

Minha chegada foi discreta, minha passagem pelo gramado do Palestra, não.

Nos primeiros treinos, fazia meu trabalho, como sempre fiz. Dentro de campo, conquistei minha titularidade na zaga alviverde, já no vestiário as coisas não caminhavam tão bem assim. Questionador e impulsivo, criei alguns problemas para um sujeito que aqui vou chamar de ‘Pastor”. Era ele quem reunia a rapaziada para a roda de oração.

Nos seus discursos mais fervorosos, dizia que Deus estava conosco e nosso rival, a quem ele definia como inimigo, era do lado negro da força. Nós sempre éramos os escolhidos do “Nosso Senhor Jesus Cristo”, os outros, satanistas, maçons, e afilhados de “Zés e Marias”.

Aquilo pra mim não fazia o menor sentido. Que diabo de lavagem cerebral era aquela?!

Foi então, que minutos antes de um jogo contra o Santos, o interpelei. Bem no meio daquela roda de marmanjos abraçados, ajoelhados e de olhos fechados.

Dizia o Pastor:

“Nesse grupo, somos todos homens tementes a Deus! Aqui, só há um salvador. Aqui não adoramos imagens. Lá do outro lado, a coisa já começa errada pelo nome do time deles. Todos sabemos que não devemos acreditar em Santos.”

 Nessa hora soltei uma gargalhada, pois pra mim, aquilo soou como piada de programa humorístico. Então, ele ergueu as sobrancelhas e firme perguntou:

– Quem é o engraçadinho?!

Com a fineza, que aprendi pelo mundo, me apresentei e coloquei minha opinião. Já estava de saco cheio desse “nós somos os escolhidos”.

– Pastor, quem disse a você que Deus está conosco e não com eles? Quem disse a você que todos nós cremos no seu Deus? E se eu disser que sou de Umbanda ou convertido ao Islamismo, serei menos abençoado que você? E mais, se eu não tiver crença nenhuma, se for ateu, vamos perder o jogo de hoje?

Nessa hora, técnico segurou o riso, baixou a cabeça e deixou que o pau quebrasse.

Algumas ovelhas se juntaram e formaram o rebanho em volta de seu pastor, outros, reticentes, ficaram ali, fazendo cara de paisagem, enquanto que dois deles discretamente se puseram do meu lado. Um deles era do Candomblé e o outro, embora negasse, era evidente a sua orientação sexual diferenciada.

Entre gritos de herege e satanista, o presidente entrou no vestiário e interviu na acalorada discussão ecumênica. Apaziguados os ânimos, fomos para o jogo sem dar palavra. O Pastor, que era meu companheiro de zaga, jogou como sempre, viril, beirando a brutalidade. E eu que não era de ir ao ataque, motivado pela alta temperatura do vestuário, me arrisquei e fiz o único gol da partida.

Veja só, o Herege foi o escolhido daquela tarde fria de São Paulo!

Nos jogos seguintes, o vestiário já não tinha aquele clima de “Aleluia, irmão!” Agora os cultos eram ministrados no quarto do hotel onde concentrávamos. Graças aos Santos!

Depois daquele jogo, passei a ser mais eu. Me vestia como sempre fiz na Europa, lia meus livros sobre esoterismo, viajava nas mensagens das letras de Bob Marley…

O vestiário estava rachado, mas em campo, o time não perdia uma dividida. Batíamos todos os adversários e chegamos à grande final.

Foi então que na manhã da véspera do grande jogo contra o Corinthians, uma bomba explodiu na imprensa. Um jogador do Palmeiras havia se envolvido num escândalo daqueles. Num famoso motel da zona Leste de São Paulo, surtado no pó e uísque, o cara meteu a porrada no travesti que ele havia contratado. Destruiu a luxuosa suíte. Espelhos, louças, banheira, não havia sobrado nada.

Rapidamente a imprensa, em polvorosa, se plantou na porta do motel à espera daquele clique comprometedor. No quarto em destroços, estavam o jogador – mais calmo-, seu empresário, o advogado, o diretor de futebol do Palmeiras, o gerente do motel e a pobre e indefesa Rayanny Love.

Ali, naquelas longas horas discutiam uma saída para o problema criado. Às nove e meia meu telefone toca, era o Dirigente do Palmeiras na linha. Disse para que eu não saísse na rua e que mandaria um carro me buscar dentro da garagem da minha casa. O Dirigente era meu amigo, então, mesmo sem entender, fiz o que me pediu. Não pus o nariz na janela. Uma hora depois, um carro todo preto buzina na minha porta. Abri o portão automático para que ele entrasse e embarquei numa viagem rumo ao desconhecido.

O motorista não disse palavra e nos guiou até a zona Leste. Entramos no tal motel e estacionamos num lugar reservado para carga e descarga. Levado ao quarto, ainda sem acreditar que estava ali, abro a porta e me deparo com aquele cenário de pós-guerra.

Eu podia ouvir um choro copioso e abafado, vindo do banheiro. Ainda não tinha ideia do que fazia ali e nem quem havia feito tudo aquilo.

Do banheiro saiu o Pastor, mas não era ele quem chorava e sim um membro da comissão técnica, que nas horas vagas curtia o lado B da vida de homem casado e fiel aos princípios cristãos. O Pastor se aproximou, e encarecidamente pediu que eu os ajudasse.

Mediante uma boa quantia oferecida ao gerente, a travesti e outra a mim, saí pela porta dos fundos e convoquei a coletiva de imprensa onde assumi a bronca do “temente à Deus”.

Fiquei com a pecha de gay, drogado e prostituído, a faixa de campeão paulista daquele ano e o respeito dos meus colegas de time.

Mas só para constar…

Parafraseando o saudoso Tim Maia…

Não sou gay, drogado e nem prostituído, só minto um pouquinho de vez em quando.rs

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s