Não, Você Não é Obrigada

Por Valdez Gomes

 

não sou obrigada a nada

 

Sete de maio de 1948, início de noite de um sábado nublado. Tomamos a condução de volta pra casa, nos acomodamos nas últimas poltronas. Pela via que trafegávamos, uma charrete barulhenta nos ultrapassou pela direita. Da janela lateral, minha filha sorriu e acenou para o condutor do veículo de tração animal.

À medida que o bonde ia fazendo suas paradas, pessoas de todas caras, classes e tribos adentravam o corredor principal, que, sujo e mal conservado, servia de passarela para os apressados passageiros.

A certa altura, meia dúzia de pessoas sobe. Aparentemente, dois grupos de três pessoas. O primeiro, formado por três mulheres de meia idade, se acomodou à nossa frente, em dois bancos. Elas se entreolhavam e em voz baixa conversavam.

O segundo trio sentou-se nos bancos vizinhos, bem do nosso lado. Eram duas mulheres e um homem, e estes, ao contrário das mulheres de meia idade, falavam e gesticulavam com eloquência e voz de discurso político, aliás justiça seja feita, a moça que aparentava ser mais jovem dos três, apenas assentia – com ar de arrependimento- com a cabeça e o olhar vago, perdido no tempo.

A velha, que mais parecia bisavó da menina, dava conselhos e reforçava o discurso do senhor que ao lado da menina, se enchia de moral dizendo, a todo instante, que a seu lado ela só tinha “a ganhar”. Ainda não era possível entender o que eles discutiam… E antes não tivesse entendido mesmo…

– Você não tem que dar ouvidos ao que aquela mulher diz, ela não é sua amiga. Quer ver seu mal! Se você ficar doente, quem vai cuidar de você? É ela?! Não, é ele que está do seu lado, não é, moço?

No que o outro completava:

– Claro! Comigo você só tem a ganhar! Sou aposentado, tenho minha pensão, mantenho a casa, ponho comida na mesa…

– Olha aí, menina! Amanhã ou depois, se acontece alguma coisa com ele, você fica recebendo a pensão dele. Acha que sua amiga vai te ajudar se você precisar? Pensa bem…

– Eu já falei pra ela, senhora. Eu já vivi muita coisa nessa vida, sei o que é melhor pra ela. Dou conselho todos os dias.

A menina, visivelmente constrangida e até com certa irritação, querendo que o assunto terminasse, apenas dizia que sim.

Mas a velha parecia não ter fim, não estava satisfeita e o idiota dava corda aquela prosa deplorável.

– Há quanto tempo vocês estão casados?

Ele respondeu pelos dois:

– Quatro anos.

– Quantos anos você tem, menina?

– Vinte e nove.

– E o senhor?

– Sessenta e cinco.

– Olha aí, menina. Um homem maduro, vivido, querendo te dar valor, construir família, te dar um lar, pagar suas contas… Não é todo dia que se encontra um homem desses não, né moço?

– Claro que não!

Deu vontade de falar umas verdades para aquela dupla de abutres, mas o bom senso segurou meu ímpeto e reconsiderei minha atitude.

A essa altura, meu estômago que já havia revirado duas vezes, deu a terceira volta e para evitar que regurgitasse ali, virei a cara para o lado oposto e tentei chamar a atenção de minha pequena filha.

Eu quis tapar os olhos, os ouvidos, pô-la para dormir no meu colo.

Minha filha que assistia aquela cena retrógrada e lamentável, não entendia ao certo que se passava e antes que começasse a perceber, saquei meu celular e abri o jogo de caça palavras que ela adora fazer. Felizmente, ela se distraiu jogando.

A sessão do descarrego continuou, para mim já bastava. Então descemos no meio do caminho e tomamos um táxi, aquele ambiente não serve para minha menina. Ela não precisa conhecer a triste história dos tempos dos nossos avós, bisavós, vivenciando experiências como essa.

Os tempos mudaram, ciência e tecnologia evoluíram, mas inacreditavelmente, algumas pessoas insistem em ficar presas em conceitos ultrapassados e (in)cômodos.

Mulher nenhuma merece sofrer, presenciar, compactuar, se submeter à tamanha agressão.

Definitivamente, Não, ela não é e nunca será obrigada!

 

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