Nêmesis

Por Valdez Gomes

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Recobrava os sentidos, na boca um sabor de sangue pisado. Parte de mim estava caída ao chão arenoso de um canteiro de obras, a outra se esvaía em um vermelho vivo, espesso, quase gelatinoso. Ainda não entendia o que fazia ali, naquele lugar ermo e ao mesmo tempo movimentado. Apaguei novamente, melhor dizendo, fui apagado.

Sabe-se lá quanto tempo depois, fui reanimado ao som de sirenes e uma certa dose de truculência por parte do paramédico, enfermeiro, socorrista, ou qualquer que seja o nome que se dê. Posto na ambulância, tornei a perder os sentidos, num completo apagão.

No hospital, médicos e enfermeiros se revezavam na fresta que meus olhos, entreabertos, miravam, mas nada viam. Ainda não era o coma, apenas o efeito da anestesia aplicada antes do primeiro leve deslizar do bisturi em minha cabeça. Em coma induzido, voltei à escuridão. Naquele momento só estava vivo por assim dizer…

Segundo relatos, entre a picada da agulha anestésica e o último ponto costurado, foram longas horas de trabalho dos profissionais de luvas tingidas de vermelho e roupas impecavelmente brancas. Do instante em que deram por encerrado o procedimento cirúrgico até o dia em que voltei a abrir os olhos, foram longas semanas.

Iniciei os trabalhos de fisioterapia, acreditando piamente na melhora total. E assim se passaram dezenas de sessões até este momento; o dia que tanto sonhei. Foi uma vitória de toda uma equipe: médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, familiares e amigos. Todos estavam de parabéns, eu devia tudo a eles.

Mas e eu? Ainda faltava a recompensa por toda essa árdua jornada entre a escuridão inicial e os primeiros passos longe das sombras de todo esse staff. Eu precisava me pagar e sabia exatamente o preço a ser quitado.

Vesti minha armadura de algodão e poliéster, calcei minha coragem, peguei a ferramenta certa para o acerto de contas que me cobrei por todo esse tempo e saí de casa. Meus companheiros me aguardavam ansiosos na esquina de casa. Fui recebido calorosamente e fomos à luta.

No campo, posicionei-me estrategicamente de forma defensiva. Não podia me expor, a insegurança ainda deixara resquícios. Ao longo da via, um desavisado, vestido com uma camisa preta e vermelha, passeava distraído. Ao sinal do nosso líder, avançamos. O mulambo não teve tempo de reagir.

 

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Estirado ao chão e devidamente abatido, foi arrastado até meus pés. Exaurido e desesperado, rogou misericórdia. Lembrou-nos que tinha família, não era integrante de nenhuma facção de torcida do Flamengo e que pelo amor de Deus o deixassem viver. Eu sabia que tudo aquilo era verdade, eu também nunca pertenci a nenhuma “organizada”. Me juntei a eles com intuito de me vingar, ou como eles dizem, “tirar meu prejuízo”.

Quinze segundos foi o tempo que levei, ali estático, olhando em seus olhos. Lembrei que eu havia feito o mesmo discurso, quando uma matilha de hienas rubro-negras, por muito pouco, não tirou minha vida.

Aquilo mexeu comigo e enquanto ele suplicava e rezava, coloquei-me em seu lugar. Senti a garganta doer, como se engolisse uma pedra. Minha consciência pesou, olhei novamente para ele, olhei para o céu e mentalmente disse: “Perdoa senhor, ele não sabe porque faço”. Saquei o taco de beisebol e misericordiosamente desferi os mesmos golpes que recebi naquela tarde de Fla-Flu.

A vida daquele pobre infeliz foi brutalmente abreviada, mas as nossas, que cometemos a barbárie, segue normalmente, afinal, com o salvo conduto que nós, da torcida organizada, possuímos para toda a sorte do mundo, podemos tudo e não devemos nada. No máximo, uns poucos meses numa cela especial em Bangu, até que aquele advogado do clube nos tire de mais esse percalço com um tapinha nas costas e a recomendação de tomarmos mais cuidado da próxima vez.

Obrigado, Doutor! Viva a Justiça deste país!

 

 

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