1989, o Ano da Conversão

Por Valdez Gomes

bota

Em meio às recordações alegres e outras tristes, vi-me envolto numa aura de paz, plenitude. Estava acordado demais para estar sonhando, o barulho ensurdecedor que vinha das arquibancadas não deixava dúvidas. Eu estava ali e ao mesmo tempo não estava, mas como pode isso? Eu via tudo o que se passava ao meu redor, as jogadas no campo, a vontade louca das pessoas a ponto de pularem no pescoço de outras, um árbitro que tentava de todas as formas aparecer mais que a bola e, curiosamente, via-me abraçado ao meu filho que chorava, enquanto outras pessoas se aproximavam para confortá-lo sei lá por quê.

As lembranças e fatos vinham passando e era quase como se me dissessem “lembra-se disso? E isso, o que te faz pensar agora?”

Ao sabor do acaso, do meu subconsciente ou mesmo do tempo cronológico de meu delírio momentâneo, os flashes foram se sucedendo. Estaria bêbado? Delirando de febre? Ou passava pelo mais longo de déjà vu já registrado na história?

Lembrei-me do tempo em que corria pela rua, atrás de uma surrada bola de capotão com meus amigos, da chuva que caía; alguns ingredientes da emocionante pelada que jogávamos todas as sextas-feiras ali na rua Sá Viana…

E da janela, minha mãe gritou meu nome “entra Clóvis, venha jantar!”.

Daquela manhã que ninguém esperava, e súbito, impressa num mimeógrafo, perfumada e fresca de álcool, uma prova daquelas, nos esperava. Levei pau na prova e em casa…

O primeiro beijo, no Colégio Pedro II, que aconteceu na quadra de esportes, onde quase fui expulso. A professora mais caxias, filha de militares, nos flagrou. Morri de vergonha…

Do último título do Fogão, naquele ano de 1968, e das arquibancadas assistia Gérson dar números finais àquela partida, que sagrou o Botafogo bicampeão Carioca. Um impiedoso 4 a 0 diante de 140 mil pessoas em cima do Vasco…

E naquele que viria a ser o teste da minha vida, passei com louvor. Aprovado na UERJ em Medicina. A rua toda fez festa, meus pais choravam como se tivessem levado uma bolada no bingo da Urca…

Ainda no primeiro semestre, apaixonei-me por Júlia. Antes do fim do curso, já noivávamos… (suspiros). Pouco tempo depois de formado, subíamos o altar. Ela estava linda!

Na lua de mel, tivemos nossa primeira experiência sexual. O nervosismo e a inexperiência foram nossos companheiros naquela noite. Foi tudo, menos prazeroso. Com o tempo aprendemos, daí as coisas evoluíram…

Recém-formado, encarei alguns plantões barra pesada no Miguel Couto, entre pacientes anônimos e ilustres, suturei ninguém menos que o temido traficante “Escadinha”. Havia tentando uma fuga mirabolante do presídio, mas fora alvejado de raspão pelos guardas de plantão. Assim que fechei os últimos pontos, ao pé do ouvido recebi uma cantada de alguns bons milhares de cruzeiros em troca de uma forcinha para sair dali em liberdade. Óbvio que rejeitei.

Anos mais tarde, já estabilizado, após inúmeras tentativas, veio o diagnóstico: eu era estéril… O golpe foi duro, mas me recuperei rápido e resolvemos adotar o Joaquim; a felicidade invadiu nossas vidas.

Das manhãs de sábado vieram as recordações das longas viagens até Marechal Hermes, onde o nosso Botafogo tem sua base. De lá saíram alguns craques que rodaram o mundo da bola.

De 68 para cá foram vinte e uma primaveras.

Entramos pela rampa da UERJ ávidos por um espaço na arquibancada, para quem sabe, enfim, soltar o grito sufocado daquele amargo hiato.

Paulinho Criciúma, ídolo do time, entrou em campo e com ele trouxe o restante dos jogadores e as esperanças de todos os alvinegros naquela noite de quarta-feira, dia 21 de junho de 1989, público de 56 mil pagantes.

Do outro lado, Zico capitaneava um Flamengo repleto de estrelas: Jorginho, Leonardo, Aldair, Zinho e Bebeto eram alguns dos nomes de peso.

O destino não poderia ter reservado palco e antagonistas melhores para aquela ocasião; mesmo com certo receio, eu sabia que o papel de protagonista caberia ao time da Estrela Solitária.

Atento e tenso, vi o primeiro tempo se encerrar sem movimentação no placar. Mas, aos 12 minutos do segundo tempo, meus olhos se encheram d’água quando Luizinho enfiou uma bola no meio dos zagueiros do Flamengo e pôs Mazolinha para correr pela esquerda. Este cruzou e encontrou o camisa 7, Maurício, entrando pelo meio, que empurrou para o fundo da rede não só a bola, como também Leonardo.

Naquele instante, o pranto transbordou em meu rosto, a boca secou, o ar me faltou e meu coração parou… Literalmente.

Morri junto com o Jejum de títulos do meu amado Glorioso; não tive tempo sequer de gritar gol. Surpreendido por um infarto fulminante, vi todo esse filme – não sei bem a exatidão da ordem cronológica – passar por minha retina, como de fato dizem ser o rito de passagem.

Socorrido às pressas por um colega cardiologista, que também comemorava o feito de Mauricio, milagrosamente fui reanimado e felizmente voltei à vida.

Aquilo que os médico dão nome de Experiência Quase Morte(EQM), eu chamei de conversão.

Depois dessa experiência vivida ou morrida, eu, que era ateu, me converti e, acredito que o mais cético dos céticos também não tem motivos para duvidar de que “há coisas que só acontecem aos botafoguenses”.

1989-Botafogo-1x0-Flamengo-Maurício

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