Fio da Maldade

Por Valdez Gomes

SOCI

Aprendeu o ofício com seu pai. No início limitava-se a cortar os cabelos dos irmãos, primos e amigos próximos, ganhando, com o tempo, a experiência exigida por seu pai para dividir as cadeiras do humilde salão da família. Completou maioridade, especializou-se, modernizou-se com novas técnicas e, não demorou muito, tomou a frente do salão. Jovem aplicado, disciplinado, fez do pequeno estabelecimento referência no bairro da Piedade. Embora com certa resistência, seu pai se viu obrigado a reconhecer que aquele moleque já não era mais seu assistente e ainda, tornara-se o melhor da região. Habilidoso com as ferramentas de trabalho, não admitia tirar sangue de seus clientes com sua afiada navalha; perfeccionista e cuidadoso, não errava a mão no deslizar da lâmina. Abria o salão às 7 horas e só encerrava o expediente quando o ultimo fio de cabelo pousasse no chão frio da barbearia. Era assim de segunda à sábado, religiosamente.

Casou-se, foi pai de duas meninas gêmeas. Frequentava a missa aos domingos pela manhã; à tarde um almoço preparado por ele, com a família. Sujeito pacato, boa praça, respeitado no bairro, que se permitia apenas um momento de lazer sem a família: ir aos jogos do seu tricolor, mas sempre desacompanhado. Considerava perigoso o ambiente do futebol.

Altruísta, era atuante e entusiasta com campanhas de doação de sangue e, por essa causa, mobilizava seus amigos tricolores e clientes torcedores de outros times. Adorava ajudar nas causas nobres que a Young Flu se dispunha a realizar, embora não tivesse qualquer relação com a organizada e, muito pelo contrário, considerava as torcidas organizadas o câncer do futebol. Costumava chamá-las, de forma bem peculiar, de “trucidas organizadas”. Lia com horror as perdas das batalhas campais protagonizadas por marginais travestidos de torcedores.

No dia seguinte ao Fla-Flu, abriu o jornal e, estarrecido, leu em voz alta a matéria que dava conta da cobertura da guerra campal que se estabelecera no bairro do Sampaio. Torcedores que iam para o Engenhão haviam marcado um encontro bélico naquele local. Entre detidos e inúmeros feridos, chamava a atenção o óbito de um torcedor tricolor. Em meio a truculência dos vândalos, um dos valentões havia sido degolado em plena luz do dia.

Fechando o jornal, comentou: “lamento pela família, mas ele deve ter feito por merecer”

E todos aquiesceram com comentários vagos.

No fim de semana seguinte o clássico era outro, Vasco x Fluminense, mas o cenário era idêntico. Jogo no Engenhão, selvageria de torcidas em outro ponto da cidade, dessa vez na Ilha do Governador. Tudo devidamente alardeado pelas redes sociais, só a Polícia não sabia. Moradores e comerciantes da região, precavidos, fecharam suas portas e se recolheram mais cedo. A perspectiva era de “tiro, porrada e bomba”.

Na segunda-feira pós-jogo, o resultado era o que menos chamava a atenção. Desta vez os mortos eram dois, e a causa era curiosa… um vascaíno e um tricolor haviam sido degolados.

Quanta crueldade! Exclamou o barbeiro antes de dar as primeiras tesouradas na vasta cabeleira de seu cliente.

A última semana daquele mês de agosto passou lenta, muitos clientes não haviam aparecido, o tempo chuvoso norteou aqueles dias e fez com que muitos adiassem a ida ao salão.

Aproveitando-se da baixa procura por seus serviços, tomou o trem e foi ao Centro comprar novas lâminas, afiar tesouras e reabastecer a barbearia com os insumos necessários. No vagão, um grupo de estudantes falava de um tal “Cirurgião”, que agia entre as torcidas e vinha horrorizando com seus cortes precisos na altura do pescoço de suas vítimas. O “Cirurgião” ainda não tinha rosto e tampouco se sabia para qual time torcia, se é que torcia – especulava-se que fosse rubro-negro, visto que já haviam morrido 2 tricolores e um vascaíno -, mas já causava frisson entre as pessoas. Um misto de medo e admiração por seu “trabalho”.

Veio o fim de semana. O Botafogo, dono da casa, receberia o São Paulo, em jogo válido pelo Campeonato Brasileiro daquele ano. Assim que os ônibus que trouxeram a torcida são-paulina ao Rio rodaram os primeiros quilômetros da Dutra em solo fluminense, alguns carros apinhados de alvinegros e cruzmaltinos cercaram o último do comboio e abriram fogo contra os visitantes. Os paulistas revidaram e o fogo cruzado durou alguns minutos, quando os estampidos dos disparos cessaram, dando a entender que a munição de ambos os lados havia se esgotado. Então, deu-se início ao embate corpo a corpo.

Na manhã seguinte o mesmo jornal contabilizava os presos, feridos e mortos. Milagrosamente, nenhuma morte por arma de fogo. Dezenas de feridos, outros tantos detidos e 4 mortos. Dessa vez, um dos mortos não havia sido ferido no pescoço, mas sim na veia femural, na coxa esquerda. A fama do Cirurgião agora não se restringia mais à capital fluminense: depois da morte brutal dos paulistas, seus feitos ganharam o país. Para a Imprensa não havia dúvidas: um serial killer rondava as torcidas organizadas.

A primeira semana de setembro, como em todo início de mês, foi gorda. As três cadeiras do salão não vagavam nem no intervalo do almoço. Clientes apressados e outros nem tanto se revezavam no envolver do avental branco. Barbas, cabelos e bigodes eram talhados um a um no habitual manuseio cirúrgico das tesouras e navalhas.

No sábado, por volta das 21 horas, próximo do encerramento das atividades, um cliente sentou-se em uma das cadeiras e pediu que o barbeiro mais famoso do estabelecimento lhe fizesse a barba e um corte de cabelo no melhor estilo “militar”. Sério, ele permaneceu calado até o acertar das costelas. Apenas observava o ballet suave da Gillette deslizando sob o solo branco feito neve que a espuma de barbear formava em seu rosto. Desviou a atenção da barba e viu que no antebraço direito do barbeiro, havia uma tatuagem do Papa João Paulo II ao lado de uma bandeira tricolor. Em cima da bancada de trabalho, dentro de uma pasta transparente, recortes de diversos jornais onde era possível perceber que ali, também, havia interesse no tal serial killer.

Era o fim de mais um exaustivo expediente.

No dia seguinte, era a vez do Flamengo receber a Chapecoense no Maracanã. Os torcedores de Chapecó não vieram ao Rio. Não se sabe se por conta do número reduzido de simpatizantes ou pelo efeito da fama de um tal Cirurgião Rubro-Negro. O fato é que a partida ganhava ainda mais a cara de jogo de torcida única. Não fosse jogo do Flamengo, havia tudo para ser uma tarde pacífica.

No gramado o time da casa deitava e rolava e, ao final do jogo, a torcida gritava olé pelos impiedosos 5 a 1. Do lado de fora, naquela que viria a ser a prorrogação da partida, o clima era de aparente calmaria. Porém, a poucos quilômetros de distancia dali, no Largo da Cancela, desencadeou-se uma confusão generalizada entre rubro-negros e flamenguistas, quando mais uma vez o Cirurgião deixou sua marca. O saldo foi de 1 ferido e 3 mortes, aparentemente causadas pelo mesmo modus operandi: ferimento por objeto cortante na artéria aorta.

 Na manhã seguinte, antes mesmo que se iniciassem as atividades, o mesmo cliente que encerrara os trabalhos no sábado cumprimentou a todos com um cordial “bom dia” e, de posse do retrato falado e de um mandado, deu voz de prisão ao barbeiro de vida serena, moral ilibada e de vida cristã. Para espanto de todos, o acusado não se rebelou, aceitou a ordem e apenas disse:

“Tudo o que fiz, foi pelo bem das pessoas de bem”

Convocada para entrevista coletiva, a mídia, mais do que ligeira, corrigiu a manchete. E onde se lia Cirurgião, agora, ironicamente, estava empregada a alcunha de “Barbeiro de Piedade”.

O Delegado responsável pelo caso, divagava sobre a tal linha de investigação que levou ao desfecho do caso. Tudo balela, na real, o assassino só fora descoberto por conta dos detalhes que a única vítima sobrevivente deu sobre seu algoz. Não havia dúvidas, aquela tatuagem, de gosto duvidoso, só poderia pertencer a uma pessoa.

No interrogatório, sem demonstrar arrependimento, confessou todas as mortes. Com olhar perdido e sereno, disse que fazia apenas seu papel. Vestia sua toga, apanhava seu instrumento de trabalho, julgava e aplicava as penas aos réus. Escolhia sempre os mais valentões. Dizia que era para servir de lição aos demais.

No Júri Popular, considerado incapaz, foi sentenciado a cumprir pena num manicômio judiciário, onde passou o resto de seus dias definhando, vindo a falecer do coração com a notícia de que uma de suas filhas se casara com um torcedor do Flamengo, integrante da Jovem-Fla, e que um neto já estava a caminho.

 Psicopata2

 

 

 

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2 respostas para Fio da Maldade

  1. MENDONÇA, Leonardo disse:

    Não consigo expressar minha aflição lendo esse conto……….

    Curtido por 1 pessoa

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