Cartão Vermelho, Impedimento Marcado

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Por Valdez Gomes

Eu morava numa casa humilde e dividia um quarto com meus 3 irmãos; não havia corredores e a porta de meu quarto dava para a sala. Aos domingos, pela fresta da porta, acompanhava a Mesa Redonda da CNT, comandada de forma magistral pelo Garotinho José Carlos Araújo. Nomes de peso do rádio carioca compunham a mesa: Élcio Venâncio, Pedro Costa, Apolinho, Sérgio Noronha, o saudoso Luiz Mendes e o baixinho Gilson Ricardo.

Zeloso, meu pai me mandava para cama mais cedo, não permitindo que eu assistisse da sala de Tv os Ases da rádio AM discutirem os lances da rodada, elegerem os craques dos jogos, curtir as histórias pitorescas do Gilsão e as discussões acaloradas entre Pedro Costa e Eurico Miranda.

Meados de 2014.

Dia ensolarado, voltávamos do almoço, caro como só se encontra na Zona Sul de São Cristóvão, Amanda, Victor, Alan Parada e eu. Conversávamos animadamente sobre amenidades e falávamos mal do chefe, para variar. Como amantes dos prazeres da gordice, resolvemos esticar até a casa de doces mais próxima.

Poucos metros antes de saciar nossa sede por sacarose, gordura trans e glúten, um senhor baixinho, parado de costas para nós, trocava a bateria de seu relógio Cássio, daqueles que usávamos para ir à escola nos anos 90.

Foi o Parada quem se antecipou, parou ao seu lado e me perguntou:

– Sabe quem é esse cara?

Nesse momento tive um estalo. Aproximei-me antes que ele se virasse em minha direção e disparei:

– Claro! É o Gilsão!

O que se viu nesse instante poderia ser narrado com mais riqueza de detalhes por meus amigos de gula.

Conhecendo Gilson Ricardo e seu bom humor, saquei uma piada.

– Pô Gilsão, pegou mal pra você, estou te reconhecendo de costas.

Ele se virou para mim, e riu um riso largo. Foi a contrassenha para entrarmos numa conversa descontraída e altamente informal.

No afã de saber mais sobre um ídolo, metralhei perguntas de toda natureza. Por que saiu da Globo? Por que não deu certo na Bradesco Esportes? E na Transamérica, como estão?

Pacientemente respondeu cada uma de nossas perguntas, e não satisfeito contou causos, reclamou das barangas de seu Flamengo, explicou o motivo de usar relógio barato e arrancou risos de todos ao relatar o dia em que Gérson, o Canhotinha de Ouro, foi roubado por dois meliantes que confessaram ser seus telespectadores, na porta da emissora em que trabalhavam em Botafogo. Gilsão puxava assunto como se sentisse que ali éramos todos amigos próximos, e inclusive tirou fotos.

Envolvido pela atmosfera – simples e natural – que ele criou, sentia-me de fato como uma criança que encontra seu ídolo. Como se estivesse diante do Mickey Mouse, da Branca de Neve, do Chaves, do Super-Homem, do Zico, do Roberto Dinamite, seja lá qual for seu ídolo de infância.

Victor conta que nunca me viu tão besta. Só quem me conhece no dia a dia, teve a noção exata do quão feliz estava. E era a mais pura verdade.

Eu repetia para eles:

– Bicho, você não vai tirar uma foto com o Gilsão?! É o Gilsão, cara!

Se havia uma palavra naquele momento que bem definia meu estado de total encantamento, esta seria “felicidade”, aliás, sem aspas. Felicidade.

Passei a tarde inteira contando como havia sido aquele encontro e com orgulho mostrando a foto que, gentilmente, Gilsão fez ao meu lado.

10 de Janeiro de 2016.

Logo pela manhã, recebo pelo grupo do WhatsApp, do mesmo Parada que havia me proporcionado aquele encontro memorável, a notícia de que meu amigo/ídolo Gilson Ricardo estava internado por conta de um AVC. Sofri um baque.

Há cerca de 15 dias havia passado por situação semelhante, pois meu pai também tivera um acidente desses.

A história se repetia…

Segundo as poucas informações que a imprensa noticiou, Gilson Ricardo havia se sentido mal no dia 08 e, mesmo assim, apresentou o programa de rádio naquela tarde. No dia seguinte, foi internado. Nos dias que se seguiram, seu quadro evoluiu lentamente, conforme pude apurar. Guerreiro que é, não se deixou abater e mandou avisar que volta em breve.

Hoje, passadas duas semanas do fatídico ocorrido, não sei ao certo onde e como está o Gilsão. Um probleminha desses é muito pequeno perto de sua alegria e a vontade de continuar dando seu melhor nas ondas do rádio.

Meu querido, saque do bolso aquele seu famoso cartão vermelho e mande para o chuveiro essa fase.

Mais atenção com sua saúde, vamos evitar que novos impedimentos como esse interrompam nossos ataques de sorrisos.

“Ô Gilsão, sai dessa! Para com isso!!!”

Até breve!

gilsao

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4 respostas para Cartão Vermelho, Impedimento Marcado

  1. Marcelo disse:

    Tenho grande simpatia por transmissão de jogos atravès do ràdio. Digo Mais, Se estiver assistindo via televisão a algum jogo Muito ruim, desligue a Mesma e ouça pelo ràdio, pq là esse mesmo jogo Vai “emocionar”!!! Como nenhum outro! Obrigado senhor Silvano ( Meu Pai) por me ensinar a sentir Gosto pelo ràdio, Desde a època que seu Fluzão estava na terceira. A final de contas, quem Vai querer televisionar um jogo da terceira divisao?!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Amanda disse:

    O assunto rendeu o dia inteiro!!!

    Melhoras ao Gilson/Gerson!!!

    Curtido por 1 pessoa

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