Sob o Peso das Horas

Por Davi Miranda

O sol se espreguiçava quando ele despertou.
Vestiu-se rápido, quebrou três ovos no copo 
e os engoliu, crus.
Caminhou apressado até a estação de trem 
e conseguiu pegar o das cinco e meia, já lotado. 
Chacoalhou por quase duas horas, 
encolhendo-se de instante em instante 
para dar passagem aos ambulantes, 
vendedores de picolés, de balas, 
de pomada para os pés e de toda sorte de quinquilharias.

Fez baldeação na estação Central e de lá tomou um coletivo, 
conseguindo sentar quando já estava em Copacabana. 
De tão cansado desejou que a viagem durasse um pouco mais, 
mas desceu logo depois, na praça General Osório.

Após mais alguns quarteirões a pé, 
chegou ao prédio em que trabalhava como zelador.
Deu duro por toda a manhã: 
varreu, encerou, catou, torceu, 
esfregou, podou, espanou, enxaguou e lavou. 
Deu uma parada por volta do meio dia, 
e comeu a marmita num fôlego só, 
tanto pela fome quanto 
pela pressa de terminar logo e partir mais cedo.

A tarde não foi ligeira como esperava, 
pois, a caminhonete do quarto andar, 
ao dar ré, arrebentou uma das tubulações, 
inundando boa parte dos pilotis.
Enfim, conseguiu sair meia hora mais cedo, 
e às cinco e quarenta já estava no ponto de ônibus. 

Entre Copacabana e Botafogo o trânsito era como um nó, 
que só veio a ser desamarrado no Flamengo; 
e foi lá que desceu, no Aterro. 

Parou no campinho de sempre. 
Vestiu o uniforme, calçou as chuteiras, 
fez polichinelos e se alongou. 
Lá ele era o cara: 
os colegas lhe faziam festa, puxavam assunto, 
e conforme os ônibus chegavam a turma aumentava, rapidamente. 
Os jogadores se revezavam, e quem estava de fora aguardava 
formar um novo time ou substituíam quem cansava. 
Os vencedores iam ficando, até serem derrotados, 
indo então para o fim da fila.

Ele entrou algumas vezes. 
Fez quatro gols, deu passe para tantos outros 
e ainda pegou debaixo das traves. 
Perto das dez se despediu, estava exausto e já era tarde. 
Penou para voltar, a condução não ajudou. 
Chegou em casa pra lá de meia noite.

Ajeitou um mexido de arroz, feijão, farinha e ovos no fogo, 
comeu na panela mesmo, tomou um banho e deitou. 
Dormiu rapidamente, e no melhor do sono o bip tocou. 
O sol se espreguiçava quando ele despertou.

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4 respostas para Sob o Peso das Horas

  1. LUIZ CARLOS GOMES disse:

    A JORNADA NÃO TERMINA MAS MOTIVA.
    TENHAM FORÇA E CONTINUEM SENDO ATREVIDOS…

    Curtido por 1 pessoa

  2. Marcelo disse:

    Impossível não se identificar com a história, da real odisséia e peregrinação que cada um tem que fazer todos os dias para cumprir horários….. Às “peladas” sem muita preocupação com horário, padrões ou cobranças. Quer dizer, desde que não perca áqueles gols “feitos”!!

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