Visceral

Por Valdez Gomes

Pet

Cresceram juntos no bairro de Fátima, eram desde sempre amigos inseparáveis. Quer dizer, só havia uma coisa que os separava: a paixão por seus times de futebol.

Nelson era rubro-negro fanático, do que tipo que não perdia um jogo sequer, ainda que pelo rádio. Seu pai abominava a ideia de sustentar marmanjos com seu suado salário. Nunca levara seu filho para assistir a um jogo de futebol no estádio. A mãe, dona Alzira, achava bom que o filho mantivesse distância mesmo. As histórias que ouvia na rádio Tupi eram assustadoras. Davam conta das covardes brigas de torcida, sempre com saldo de inúmeros feridos e alguns mortos. E assim, Nelson cresceu com medo da violência das torcidas e pena do seu dinheiro obtido com muito esforço. Acostumou-se a ver e ouvir os jogos na segurança e conforto de seu lar.

Já Rodrigo, não perdia um jogo na Colina Histórica de São Januário; ia para qualquer jogo. A fase era boa, tempos de vacas gordas. O time contava com nomes de respeito: Romário, Juninho, Felipe, Viola entre outros… Dava gosto de ver.

O ano era 2001, o Vasco vinha de dois insucessos nos anos anteriores: 1999 e 2000. Fora derrotado nas duas finais pelo maior rival. Mas esse ano a história parecia ser diferente, o time da Colina havia feito melhor campanha e levava vantagem para as finais. Vencera a primeira delas por 2 a 1 e só perderia o título se fosse batido por 2 gols de diferença.

Os ingressos para o grande jogo se esgotaram em poucos dias. Rodrigo, que sempre garantia seus ingressos com antecedência, dessa vez, atordoado por um contratempo no trabalho, não conseguiu comprar o seu.

Os dias foram passando e, Nelson e Rodrigo, que trabalhavam na mesma empresa, não falavam de outra coisa, “a grande final que se aproximava”. No almoço, ida e volta do trabalho, só tinham um assunto: o jogo derradeiro.

No sábado, dia que antecedeu a peleja, deram trégua no assunto e acompanhados de suas respectivas namoradas, foram juntos ao cinema assistir Gladiador – vencedor do Oscar daquele ano -, uma sessão extra numa das últimas salas ainda abertas da Cinelândia.

Na manhã seguinte, Rodrigo raspou suas economias para ir até o Maracanã e faria sua proposta irrecusável para quem estivesse disposto a vender seu ingresso. Por volta das 13hs, saiu de casa, e de moto parou nas imediações do estádio.

Como um cão farejador, olhava para todos os lados em busca de uma alma caridosa disposta a salvar seu dia. Mas, a exemplo do próprio Rodrigo,  ninguém deixaria de subir as rampas do estádio e invadir as arquibancadas. Os minutos foram passando, e já compunham a primeira, segunda, quase terceira hora de buscas.

Às 15:15, exatos 45 minutos para iniciar a partida, teve a ideia de procurar pelas “organizadas” na rampa da UERJ. Lá encontrou dois sujeitos, que para ele representavam a esperança de cruzar o portão de entrada. Mussum e Ferrugem, de início disseram não ter mais ingressos. Mas logo foram persuadidos pela proposta de Rodrigo, que pagaria um ágio de 300% pelo ingresso – que nunca chegou às suas mãos.

O jogo iniciou, e Rodrigo ainda acreditava que conseguiria entrar. Fim do primeiro tempo, do lado de fora chegava a notícia de que o Flamengo vencia por 2 a 1, resultado ainda insuficiente para reverter a vantagem cruzmaltina.

Mussum e Ferrugem haviam ido buscar os ingressos e não retornaram. Rodrigo, aceitando que fora ludibriado, pegou sua moto e voltou para casa.

No caminho, parou no bar de esquina de sua casa, onde vascaínos já davam como certo o título. Parou na porta do boteco e pôs seus fones de ouvidos para acompanhar na rádio CBN, seu locutor preferido.

O tempo corria e já não havia mais dúvida, o caneco tinha destino certo, ia para os lados da Barreira do Vasco, favela que cerca São Januário onde já haviam reservado espaço para a nova taça.

Lá pelas tantas, passava dos 40minutos do segundo tempo, os rubro-negros tocavam a bola. Na intermediária da defesa vascaína, um jogador do Flamengo avançava com certa liberdade, Rodrigo clamou: Derruba ele!
O cabeça de área do Vasco pareceu ouvir o grito de Rodrigo vindo da rua do Riachuelo e cometeu a falta. A distância não permitia nenhum perigo, a falta foi providencial, pensou Rodrigo.

Então o Sérvio ajeitou a bola, tomou distância, e o que se seguiu foi inacreditável.

Estupefato com o que via, Evaldo José, narrador da rádio CBN, não conseguiu soltar o grito de gol e explodiu num “que lindo!!!”, para só depois anunciar o gol.

Na tevê, a bola ainda passava pela barreira cruzmaltina, quando o incrédulo Rodrigo contestava a narração emocionada da bola, que ainda não se transformara em gol na tela. Ignorava o fato de que as ondas do rádio são mais ágeis que as marolas que traziam a imagem a tv.

O bar explodiu num misto de alegria e frustração. Naquele instante, um coro ecoava nas arquibancadas do Maracanã, o impiedoso “vice de novo”.

Cego de raiva, Rodrigo ficou ali parado, anestesiado por alguns minutos. Foi então que uma voz, em tom de chacota, falou em seu ouvido “vice de novo!”

Rodrigo reconhecera a voz de seu amigo Nelson, o que ele não reconheceria seria o passo seguinte que daria. Mergulhado na mais inebriante lama de cólera, passou a mão na faca que pousava sob a bancada do bar, onde se faziam caipirinhas, abraçou seu melhor amigo e em seu ouvido disse “vice é o caralho!”, enquanto desferia uma única estocada na barriga. Então, cuspiu ao lado do corpo que caiu nas calçadas alvinegras da Riachuelo, enquanto Nelson jazia em bicas de sangue. Fora de si e amargamente arrependido, Rodrigo se ajoelhou ao lado do corpo, chorando a atitude impensada, e passou a faca na altura da própria jugular, caindo abraçado ao campeão carioca de 2001.

 

 

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