Pitacos ao Mar

Por Davi Miranda

 

garrafa

 

As palavras me vêm à mente em todas as formas, cores e tamanhos; algumas eu ponho no papel, outras, caem e se quebram.

Confesso a você que, de todas as coisas que escrevi, o trecho acima, talvez, seja a que mais traduz a minha alma. Sim, sou um escritor, e mesmo que não seja um profissional, ainda é o que me mantém sonhando neste mundo.

A cada esquina que passo meu olhar se enche de palavras, frases, metáforas e, quase sempre, após alguns segundos, essas palavras desaparecem tão rapidamente quanto surgem: dissipam-se na minha mente distraída pelo barulho dos carros, com a rosa no cabelo das meninas, ou, mais provavelmente, pelo sinal do smartphone que me governa.

Aquilo que ponho no papel é apenas um traço do que minha mente concebe. Há um mundo fervilhando em minha cabeça, ora de ondas revoltas e ventos velozes, ora de contemplação e ternura. Sou um, dois, vários. Sou o lobo de mim mesmo.

Mas sei que um dia as palavras irão silenciar. Sei que um dia tudo será calmaria e ausência. Eu deixarei de existir, e é pouco provável que minhas frases cheguem aos ouvidos de alguém através das páginas que crio. Cada vez mais, sinto que escrevo para mim mesmo.

Talvez a segunda coisa que eu mais ame no mundo seja o futebol. E, da mesma forma que admiro a beleza do jogo, também admiro aqueles que conseguem traduzir em palavras o que as chuteiras dizem. Alguns fizeram verdadeiras maravilhas.

Nelson Rodrigues era único. Escrevia como ninguém sobre o cotidiano, o cidadão comum, e sobre o cidadão incomum. E dentro de campo nunca houve alguém mais incomum do que Pelé. As descrições rodriguianas a seu respeito me deram total noção de quem fora o Rei; nenhum livro, foto ou vídeo conseguiria ser tão preciso quanto os seus textos. Nem mais belo.

Armando Nogueira foi um dos maiores, e transformou o esporte em poesia. Tinha as metáforas bem desenhadas, o ritmo compassado, a escrita irrepreensível. Para ele a vida, o esporte e a arte não só se misturavam, como se completavam. Foi o melhor que li.

Se tem alguém que me dá prazer em acompanhar hoje em dia, é Tostão. O ex-craque do Cruzeiro e da Seleção tem uma visão bastante apurada sobre o que se passa em campo. Seus textos, de rara beleza e simplicidade, equilibram-se em uma estreita linha estendida entre a lógica e o imponderável. Coisa de craque.

E da nova geração quem mais me agrada é o Rica Perrone. Ele tem total domínio sobre seu dom: é capaz de escrever tanto um texto cravado de palavras duras quanto de compor a poesia mais suave. É um camaleão que muda de cor ao sabor das emoções.

A beleza realmente está em nosso olhar. Eu, particularmente, acho o futebol belíssimo. E assim levo a vida, deixando meus Pitacos em garrafas que um dia chegarão a alguém – ou retornarão para mim.

Mas o certo é que nunca se perderão.

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2 respostas para Pitacos ao Mar

  1. Marcelo disse:

    É inspirador degustar da leitura de quem sabe “Brincar” com as Palavras pondo-as de maneira cirúrgica cada uma delas no Seu lugar!

    Curtido por 1 pessoa

  2. ferreiraraul disse:

    O Rica manda bem demais mesmo! E nada no mundo se compara com o livro “pátria de chuteiras” do Nelson Rodrigues, ele era um monstro da crônica.

    Curtido por 1 pessoa

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