Sob Um Céu Azul e Grená

Por Davi Miranda

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Nota do Autor:  O texto abaixo mistura ficção e realidade, e foi inspirado na vida de Ronald Arthur Biggs e em uma cena do filme “Um Estranho no Ninho”.

                           ***

Não que fosse algum nobre da família real, mas, como se prenunciasse a chegada de alguém importante, dobravam-se os sinos da Abadia de Westminster no exato momento em que vinha ao mundo Ronald Biggs. Nascido pobre e criado em Lambeth, um dos 33 distritos de Londres – que invariavelmente está sob um céu pálido e de chuva fina -, Ronnie passou a maior parte de sua infância entre as idas à igreja e atividades escolares. 

De família extremamente católica, Biggs jamais demonstrara vocação eucarística. Sempre fora contestador, e sua verdadeira paixão ficava a sete quarteirões da igreja que frequentava: o Upton Park, estádio do West Ham. A partir de sua adolescência não havia uma tarde que Biggs não passasse no mítico estádio, quer seja assistindo aos treinamentos, quer seja apenas vagando em suas dependências, retornando para casa somente ao cair da noite.
Em pouco tempo passou a ser conhecido por todos do clube, do porteiro ao presidente, e quem lhe tinha apreço especial era o lendário Bobby Moore, aquele que viria a ser o capitão da seleção inglesa que conquistou o único título de sua história. Moore adorava Ronnie, a ponto de tê-lo feito mascote do time. Mas não tardou até que os ventos tomassem outro rumo.
Ronald Biggs perdeu seus pais em um acidente de carro, tendo sua guarda entregue à sua tia Ann Petry. Ela morava em Brighton, cidade que dista oitenta e cinco quilômetros de Londres. Foi ali, longe do Upton Park, às margens do Canal da Mancha, que Ronnie se viu apartado de tudo e de todos aqueles que amava. Em 1947 chegou a se alistar na Força Aérea Real, mas desertou e foi dispensado com desonra.
A partir daí se perdeu, e com as más influências passou a cometer pequenos delitos. 
Chegou a ser preso algumas vezes, sendo solto logo em seguida, mas arriscava cada vez mais. Até que um desses assaltos mudou sua vida e a de seu país.
Biggs, junto a mais quinze comparsas, interceptou um trem postal que passava por Buckinghamshire e levava milhões de libras esterlinas. O bando, de maneira ousada, fez a locomotiva parar, desengatou alguns vagões e despachou 120 malotes em uma ação cinematográfica, naquele que é considerado o maior assalto do século XX.

Se foram ousados e prudentes no roubo, não se pode dizer o mesmo quanto ao que veio depois. E isso fez com que rapidamente todos fossem presos. Ronald chegou a ficar dois anos detido, mas, fazendo-se valer de sua capacidade de improviso, fugiu e foi parar no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de Santa Teresa.
À época não havia tratado de extradição firmado entre o Brasil e o Reino Unido, então conseguiu ficar. Constituiu família, ganhou fama, enfim, pode deixar aflorar seu lado bon vivant. Alguns anos depois chegou a ser sequestrado e levado até Barbados, onde esperavam entregá-lo à polícia britânica, mas utilizando-se de brechas legais conseguiu voltar ao Brasil.

Os anos foram passando, e a alegria do Rio de Janeiro de céus azuis e areias brancas já não lhe bastava. Ronnie sentia falta da chuva fina, do céu acinzentado, do mau humor inglês e da camisa grená e azul do West Ham. Suas raízes ainda estavam fincadas no estádio de Upton Park. Queria voltar, mesmo sabendo que seria imediatamente preso.
Em 2001 o fez, aos 72 anos. Enfim pagaria à sua pátria o que dela tomara. Foi prontamente recolhido à cadeia. Com o passar dos anos, mesmo com sua idade avançada e a saúde comprometida, teve diversos pedidos de soltura negados. Jamais voltou à liberdade.
Fui carcereiro de Biggs em Belmarsh, durante seus últimos anos de vida, e posso afirmar que ele era uma pessoa iluminada. Certa vez me disse que mesmo estando preso sentia-se feliz como nunca fora. Seus olhos brilharam.

De tantas lembranças, guardo uma em especial: o West Ham enfrentaria o Everton na final da Copa da Inglaterra, troféu que não vencia desde 1964. Grande parte dos presos ficou bastante empolgado com a possibilidade de assisti-la, mas em retaliação a alguns acontecimentos o diretor do presídio não autorizou sua exibição. Ronnie ficou inconformado, fazendo de tudo para que o diretor revisse sua decisão, mas foi em vão. E o mandatário ainda fez com que a tevê fosse colocada no meio do pátio na hora da partida, determinando que ficasse desligada durante todo o tempo.

No dia do jogo, ansioso e nervoso por não saber dos acontecimentos que se passavam no palco da final, Biggs, que se movimentava com dificuldade, pediu para que fosse levado até a frente da televisão. Olhando desoladamente aquela tela desligada, voltou-se aos seus pensamentos, retornou aos seus tempos de menino, quando passava os dias subindo e descendo as escadas do estádio de Upton Park, e todos o conheciam, do porteiro ao presidente. Ronnie fechou os olhos e começou a narrar um gol imaginário, mas com os craques de sua época, sendo rapidamente rodeado por um grande número de presos, que vibravam a cada lance que ele descrevia. Quando disse que Bobby Moore subiu mais do que todo mundo e marcou de cabeça aos 43 minutos do segundo tempo, o pátio do presídio explodiu em alegria, e Ronald Biggs foi carregado nos ombros, como um verdadeiro campeão.

Veja alguns fatos da vida de Ronald Biggs por outro ângulo:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ronald_Biggs

Saiba mais sobre o filme Um Estranho no Ninho:
http://cinemaateca.blogspot.com.br/2014/09/critica-um-estranho-no-ninho-one-flew.html

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