Há Cura

Por Valdez Gomes

*Nota do autor: O Pitaco de hoje é inspirado na obra de Gabriel Gomes, datada do dia 04/12/2015, intitulado de “A Cura”. Segue o link:  https://pitacosacidos.wordpress.com/2015/12/04/a-cura/

 

primeiros-socorros

 

Contrariando os prognósticos céticos e vereditos desesperançosos das comunidades científica, médica, acadêmica e da sociedade civil, hoje, passados 7 dias da peleja que se acreditava ser fatal, não realizaremos a missa de 7°dia do paciente Manoel da Gama, combalido, fragilizado e dado como caso perdido por muitos, recusou-se a descansar em paz e segue travando sua árdua batalha pela vida.

O resultado do exame realizado no último dia 06 não foi nada animador, mas ainda assim passou longe de revelar o já alardeado óbito.

O corpo médico, após horas reunido em uma sala reservada para casos dessa natureza, chegou a um diagnóstico duro. O problema do Gigante Manel era mais grave do que se pensava; não era apenas o coração que sofria, a questão era muito mais complexa: o paciente foi diagnosticado com câncer de boca e laringe. Muito provavelmente fruto de uma vida regada à tabaco e alcatrão, e por graça e obra do maldito hábito de se curvar ao charuto

Há mais de uma década o velho senhor vem sofrendo com a saúde debilitada. Seu histórico aponta que em 2008 sofrera um derrame cerebral, e este, inacreditavelmente, não deixou sequelas aparentes. A reabilitação nos anos seguintes foi animadora, contudo, em 2013 um novo derrame comprometeu seus movimentos. Seu dom, literalmente, escapava-lhe por entre as mãos. Fato que, milagrosamente, foi contornado com a chegada de um renomado profissional uruguaio, especializado em reabilitação motora e sessões de fisioterapia. Nesse hiato, entre 2008 e meados de 2014, o paciente não se permitira aproximar do nefasto tridente “charuto-guilhotina-incinerador”, reduzindo assim os danos causados pelos derrames.

Pois bem, passado tudo isso seus amigos e familiares acreditavam que os anos seguintes seriam de plena recuperação, vida longa e serena de seu ente querido.

Foi então que os primeiros indícios de recaída junto ao antigo vício voltaram a se fazer presentes. Os males que assombraram os últimos anos agora eram café pequeno – como dizem os antigos -, e o destino reservaria um golpe ainda mais duro. Apenas as pessoas mais atentas vislumbraram o que estava por vir.

O vício do fumo, como outro qualquer, no início é prazeroso, pode trazer sensações extasiantes e prazeres fugazes, mas o preço, este é alto e vem acompanhado de juros. Gozando de sua melhor forma no início deste ano, o Vô Manel se viu confiante, sedutor, vitorioso. E, provavelmente, foi nessa hora que os primeiros tumores começaram a proliferar sorrateiramente, como convém a essa doença. A eloquência da voz e o dom da oratória foram definhando. No meio do tratamento muitos já o condenavam à morte.

Entre hemogramas e tomografias, foram 38 exames, ou seja, uma bateria completa de A a Z. Como consequência de uma traqueostomia realizada às pressas, restaram-lhe uma suturação de 41pontos

Por força da circunstância crítica, aquela criança que nascera e se recuperara junto do “avô”, hoje está de alta e repousa no berçário de outra maternidade. Seu companheiro de leito permanece internado e aguarda, em coma induzido, uma melhora em seu quadro para iniciar tratamento.

A família que sofre, mas não abandona seu patriarca, só espera ouvir de seu médico de confiança, ou melhor, de família, uma única coisa:

“Há que se ter paciência… Acreditem. Há Cura!”

 

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