Do Rubro ao Negro

Por Davi Miranda

 

milan

 

Eu era menino, desses que se impressionam com tudo.
Em minha infância o mundo era uma mescla de fantasia e realidade, e hoje, ainda que a memória esteja embaçada pelo tempo, vez ou outra o coração pede para rever alguns momentos, mesmo empoeirados. As lembranças vão e vêm, ninguém sabe de onde e nem por quê, mas de repente surgem, do nada. Escute essa:
Disputavam Flamengo e Milan a final do Supercampeonato, em algum tempo situado entre as décadas de oitenta e noventa. O rubro negro carioca contava com Zé Carlos; Leandro, Mozer, Aldair e Junior; Adilio, Djalminha e Zico; Bebeto, Renato Gaúcho e Nunes. O rossonero, também conhecido como Esquadrão Imortal, tinha Galli; Maldini, Baresi, Costacurta e Tassotti; Colombo, Donadoni, Ancelotti e Rijkaard; Gullit e Van Basten. Poucas vezes se viu tantos craques juntos.
Até ali o Flamengo havia passado pelo Bangu, o Napoli, a França e o Botafogo; o Milan derrotara o América, o Atlético MG, o Liverpool e o Goytacaz.
O estádio, como sempre, estava apinhado de gente. Havia muitas bandeiras, festa na geral, canto nas arquibancadas e muitos repórteres em campo. Ah, como eu me lembro de tudo aquilo… Neste momento fechei os olhos, viajei no tempo e pude até ouvir o Garotinho narrando. Contudo, não surpreende que apenas duas pessoas se lembrem daquela partida: eu e Reinaldo, amigo meu de infância.
O jogo foi equilibrado do início ao fim. O primeiro tempo foi recheado de grandes lances, e terminou 4 a 2 para o Flamengo. A segunda etapa viu os dois times se alternarem no placar, e no último instante o Milan empatou, deixando tudo igual. Com a partida em 8 a 8 teríamos mais dois tempos de prorrogação.
O time de Milão recomeçou mais agressivo e, aproveitando-se do mal posicionamento de Zé Carlos, fez mais um gol. O da Gávea, nervoso, passou a errar muito, tomando outro gol.
Tudo levava a crer que o título estava decidido, quando Zico diminuiu, e logo após, de falta, levou o jogo para a disputa de pênaltis.
Quando os cobradores de cada lado já haviam sido escolhidos, a campainha tocou; Reinaldo e eu ouvimos a voz de sua mãe. Logo depois a porta se abriu, ela entrou, agachou-se ao seu lado, disse-lhe algo bem baixinho e o abraçou. Ambos choraram. Minha avó, que da porta do quarto assistia a tudo, e eu, também choramos.
Ele colocou a palheta mansamente sobre a mesa, abaixou a cabeça e saiu sem dizer palavra. Ali, com a dor que meu amigo sentia pela perda do pai, fui apresentado à morte pela primeira vez. Seis meses depois foi a vez de minha avó partir.
Após o ocorrido ele se mudou e foi morar com a mãe na Bahia. Perdemos contato.
É engraçado, mas o que me trouxe essa história à memória foi o fato de meu filho ter mexido em meu armário e achado uma caixinha guardada há muitos anos.
Nela havia dois times de botões. E também um velho papel, dobrado, com uma tabela rabiscada com o resultado de alguns jogos, uns escudos desenhados e destaque para duas colunas: de um lado estava a escalação dos jogadores de botão do Milan de Reinaldo; do outro, o Flamengo de Davi. Havia promessa de uma grande final.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s