Fé Cega, Faca Amolada

Por Valdez Gomes

 

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Eu tinha 11 anos e jogava bola nas ruas de barro da minha cidade, Macururé. O povo dizia que eu tinha futuro, só bastava uma oportunidade. E eis que um dia, saído do fundo do surrado ônibus da Expresso Laguna, ela, em carne e osso, a oportunidade, me estendeu a mão e se apresentou com pompa de herói de Bollywood, oferecendo a chance de dias melhores.

– Olá, me chamo Heráclito Bezerra e sou representante do Bahia. Popularmente minha profissão é conhecida como “olheiro”, e sou o melhor nesse meio. Sou chamado de Olhos de Lince. Tu sabes o que é um lince? Perguntou seu Heráclito.

Com o aceno de cabeça, respondi que não.

– Pois bem, pouco importa; Lince você não precisa conhecer, mas Bobô, campeão Brasileiro da Boa Terra, você conhece, né?

– Oxe, e quem não conhece?! Respondi sem pestanejar.

– Pois então, está diante dos olhos que descobriram Bobô lá na sua cidade, Senhor do Bonfim.

– O senhor descobriu o Bobô?!

– Mas eu não tô falando, homi? Aliás, não só Bobô, mas também Bebeto. Esse levei para o Vitória, meu Leão querido. Pode perguntar pra qualquer um lá na Fonte Nova e no Barradão.

Então pôs a mão no bolso do amassado paletó e sacou algumas fotografias um tanto quanto amareladas, que comprovariam a veracidade dos fatos.

– Vejam aqui, esse sou eu ao lado do Evaristo de Macedo, técnico campeão do esquadrão da Fonte Nova; sou braço direito do homi. Essa outra é Bobô e eu; o cabra me agradece até hoje por tudo que fiz. E essa última foto, ah, essa é meu xodó, Bebeto, me agradicendo por ter descoberto ele.

E isso bastou para convencer os meus e aos outros pais, todos esperançosos por dias melhores para seus filhos e família.

Na minha época, não havia internet, celular ou televisão. A palavra de um homem era mais do que suficiente. A palavra, mais as fotografias, valiam mais do que papel timbrado e registrado em cartório.

E foi assim que meu pai e outros tantos rasparam suas poucas economias para financiar o sonho de todos os garotos da minha idade… ser jogador de futebol profissional!

À noite mainha fez o que pôde para oferecer um jantar digno do portador de meu futuro. Jantei ligeiro e corri para meu quarto para fazer minha mala. Mainha pediu para que meus irmãos saíssem e nos deixassem sós, e disse olhando em meus olhos:

– Vá com Deus, meu filho! Faça a coisa certa. Não tenha preço, acredite no seu talento e seu valor.

Então me abraçou longamente e me beijou, sem que deixasse cair uma lágrima.

Juntei uma muda de roupas (minhas e de meus irmãos) e parti na manhã seguinte para aquela que seria a viagem dos meus sonhos. Embarcamos no primeiro Expresso Laguna do dia, por volta das 5 da manhã. O destino era a Fonte Nova, em Salvador – nada mais sugestivo.

A estrada esburacada não permitia mais do que raros cochilos. Éramos 7 meninos, todos regulando a mesma idade, entre 10 e 12 anos. Seu Heráclito então se levantou, tocou em meu ombro e disse “simbora, menino, chegamos”.

A jornada durou cerca de 18 horas, somando ônibus mais a caminhada que fizemos pelo meio do mato. Paramos para repartir algumas poucas frutas, pães e bolos que trouxemos e seguimos nosso destino.

Quando chegamos avistamos um casarão, um pequeno pasto e um celeiro, todos em estado de demolição.

Seu Heráclito nos levou até o celeiro e lá nos juntamos a outros 5 meninos. Fomos brevemente apresentados, e ele disse:

– Aqui vocês dormirão. O dia começa às 5 e termina às 18 horas, então descansem. Preciso que todos estejam bem dispostos ao acordar.

Arrumei um canto para deitar e logo fui separando meu material de treino. Foi quando um menino, dos que já estavam lá nos disse:

– O que pensam que vieram fazer aqui?

– Fazer teste para jogar no Bahia; respondi.

Ele sorriu um sorriso sarcástico e foi deitar no seu canto.

O dia amanheceu e fomos apresentados ao campo. Capinar, ordenhar, tratar dos animais… nada disso havia sido combinado com meus pais, mas se não fizesse, poderia estar selando minha volta pra casa.

No almoço fomos avisados de que no jantar teríamos visitas de pessoas importantes. Imaginei que seriam pessoas ligadas ao Bahia, Vitória, Flamengo, Vasco, São Paulo… enfim chegaria a hora de mostrar meus dotes!

Voltei para o campo, trabalhei com mais disposição e quando deu a hora de encerrar o expediente, corri para o banho. Seu Heráclito orientou que vestíssemos nossas melhores roupas.

Acreditando estar me preparando para encontrar com a pessoa que mudaria minha vida, me apresentei junto aos demais 11 meninos para os distintos senhores.

Lado a lado, fomos avaliados por 4 homens muito bem vestidos. Nada nos perguntaram, não nos trouxeram uma bola ou fizeram qualquer teste físico. Confabularam entre si, e seu Heráclito selecionou 8 de nós. Fiquei de fora. Triste, voltei para o quarto e me deitei.

Na manhã seguinte, retornamos os 4 ao batente. No fim do dia, os 8 meninos voltaram; todos chorosos e com cara de espanto. Não queriam dizer o que havia acontecido.

Foi o menino que me perguntou o que vinha fazer naquele lugar quem nos contou o que acontecera. Ele e os outros 7 haviam sido levados para uma festa de adultos, e lá foram violentados.

Eu havia sido recrutado para servir aos interesses de pessoas doentes. Naquela mesma noite resolvi que não ficaria ali. Conversei com os meninos e resolvemos fugir, exceto dois mais velhos, que disseram não ter para onde ir e que ali, ao menos, teriam onde dormir e comer. Naquele instante, sem saber, fui apresentado à Síndrome de Estolcomo*.

Fugimos os 10, e cada um seguiu um rumo diferente. A vida fez questão de trilhar o caminho de cada um de nós, e nem todos tiveram a mesma sorte que eu. Fui engraxate, garçom, carregador de malas e hoje sou assistente social da Prefeitura de Salvador. Há 10 anos trabalho com população de rua. Nessas andanças da vida, me deparei com alguns dos meninos que fugiram comigo naquela noite: prostituição, alcoolismo e drogas foram alguns dos rumos que tiveram, e outros foram assassinados ou presos por crimes menores.

A lição que tirei de tudo isso?

“Para cada olheiro profissional que descobre um Bobô, existem outros dez olhudos mal-intencionados a ludibriar uma centena de bobos.”

Obs: essa história é pura ficção, e qualquer coincidência terá sido mero acaso…

…Será?

#primeiroassédio

 

* Síndrome de Estocolmo (Stockholmssyndromet em sueco) é o nome normalmente dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida há um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor.

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2 respostas para Fé Cega, Faca Amolada

  1. Marcelo disse:

    O sonho da bola… Da fama… Do sucesso… Da dignidade… Definitivamente, a bola foi uma das maiores invenções do ser humano, isso é inegável. E, atire a primeira pedra quem nunca sonhou em viver do futebol??!! Fazer aquele gol nos acréscimos e levar seu time ao topo, ter seu nome aclamado por um estádio lotado?!. Qual a sensação que teve juninho, quando fez aquele gol “monumental”?!. Que sentimento teve Maurício e Loco Abreu, após aquela cabeçada e a inesquecível cavadinha respectivamente, que todos (diga-se de passagem) sabiam que Abreu iria fazer, menos o Bruno… Ufa!!! E o que passou na cabeça do Vitor quando defendeu aquele pênalti nos acréscimos da Libertadores pelo Atletico-MG, sim.. Foi o “gol” do título!! Queremos e desejamos Mais jogadores como Neymar, Socrates,Zidane,Platini,Ronaldo’s, Jairzinho, Kaká, Pirlo, entre muitos… Mas temos que dar nossa audiência para Pepe, Pará, luiz Gustavo, Felipe Luis, F. Melo, Reascos, e tantos… Tantos.. Outros “craques” que Tiveram a sorte de serem descobertos pelas Pessoas “certas”, no momento certo e que os levaram para o lugar certo… E, voltando ao sonho da bola…. Quando Estes sonhos se cruzam com outras Pessoas que também desejam viver do Futebol, mas de maneira “empresarial”, daí é que os sonhos do “jogador” termina ao mesmo tempo que começam a surgir os primeiros calos em suas mãos, Depois de um grande dia de “treinamento”, mas sem chuteiras e traves, mas sim, com enxadas e um “olheiro” vendo se o mesmo, não tentará fugir desse Seu novo “Clube”!

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