Tributo ao Diabo

Por Davi Miranda

trajano

Ao tentar atravessar a avenida principal de seu bairro, Moacir, o alfaiate, foi atropelado por um coletivo lotado. Rolou por algumas faixas brancas pintadas no asfalto, e foi parar junto ao meio-fio, em posição fetal, já morto. Quando deu por si estava sendo suspenso no ar por duas crianças, dessas que levam asas às costas e andam com meio metro de fazenda a lhe tapar as partes. Já bem longe do chão, enquanto era içado pelos braços, o agora defunto olhava abismado para seu corpo, lá embaixo, embebecido em sangue, amarrotado como um pacote bêbado, à maneira que Chico cantou. Sua passagem foi rápida, do jeito que a morte deve ser.

Já na parte de cima, uns 30 andares depois da rota de cruzeiro das companhias aéreas, chegou ao seu novo destino. Os anjos o largaram no que parecia ser um saguão, e desceram à Terra novamente. Ficou claro que ali não era o Paraíso, mas um lugar de passagem. E mesmo assim era bem diferente daquilo que Moacir imaginara. Tinha ares de grande repartição pública: muitas filas, mesas com pilhas de papéis, e todos falando alto e ao mesmo tempo.

Andando no meio daquela confusão, achou um balcão de informações, todo em madeira, onde atendia outro querubim; deu-se conta que trabalho infantil era algo corriqueiro por ali. E conversaram rapidamente:

Fala, tio, disse o menino;
É que acabei de chegar e não sei bem o que fazer;
O senhor já fez a entrevista?;
Não, não fiz entrevista alguma;
Tá vendo aquele guichê lááá na frente, depois daquelas nuvens mais rasas?;
Uhum;
Pois então, o senhor vai até lá, se cadastra e depois dá entrada no setor de protocolo, dois andares de nuvens acima.

Agradeceu, e lá foi ele para o rabo daquela fila enorme, tão perdido quanto o dia em que veio ao mundo. À sua frente estavam umas 500 vivalmas, e naquela névoa sem fim, naquele cenário leitoso, Moacir esperou tanto que perdeu a noção do tempo. Cansado não ficou, já que seu status era de morto e a esses a fadiga e as moléstias não alcançam, mas, por outro lado, a consciência permanece intacta, e à medida em que a espera aumentava, sua ansiedade crescia junto. Pensou em diversas coisas: na família, nos amigos, nas coisas que deixou por fazer e nas que tinha feito; fez um rápido autoexame de consciência e se preocupou, pois nunca tinha morrido antes, e não fazia a menor ideia do que lhe seria destinado. Pior ainda, sendo Deus conhecedor de todos os desígnios humanos, bem saberia ele de todas as aventuras e desventuras dos homens na terra, e inclusive não haveria parede ou lençol que pudesse ocultar os segredos mais cabeludos.

Enfim, chegou sua vez. Aproximou-se de uma espécie de confessionário e, com a voz embargada, dirigiu-se a alguém que não podia ver, mas que certamente o via e ouvia.
De-Deus?, perguntou gaguejando;
Não. Sou um enviado do Senhor, como todos os outros que trabalham aqui;
Mas eu pensei que ao morrer encontraria Deus;
Que nada, Deus sempre está muito ocupado, criando mundos. Mas nos pediu para ir anotando tudo, pois assim que puder voltará para dar um jeito nessa bagunça. Bem, nada se faz sem que Ele não deseje, e se está aqui é porque assim Ele quis. Preciso preencher sua ficha, e de acordo com ela o senhor será encaminhado para o departamento adequado. Vamos lá? Seu nome;
Moacir da Silva Oliveira;
Idade?;
Sessenta e dois;
Profissão?;
Alfaiate;
Filiação?;
Maria José de Oliveira e Adejailson da Silva Oliveira;
Possuía filhos?;
Três. As meninas já estão criadas, casaram e têm suas vidas. O rapazinho é que ainda dá trabalho…;
Sei. Time de futebol?;
América;
América do RJ?;
Sim, doutor anjo. Paixão antiga, herdei do meu pai;
Mas esse é o time do diabo, não é bem visto por aqui. Tanto é que com nossa falta de apoio nunca mais conseguiu se reerguer;
Então é obra de vocês?;
Sim, são os desígnios de Deus. Posso colocar na sua ficha que o senhor é Flamengo? Além de evitar seu mal, vai agradar ao Homem;
Não! Sou América!;
Mas senhor, isso não pegará nada bem para seu currículo;
O que não pegará bem para meu currículo é colocar que sou Flamengo;
Mas é de praxe, todo mundo troca. Vascaíno a gente também aconselha a colocar outra coisa na ficha, senão é purgatório na certa;
Não troco mesmo;
Tem certeza?;
Tenho tanta certeza disso quanto a de que estou morto;
Então tá. O senhor acabou de assinar sua sentença, falou secamente;
Que seja, disse de maneira desafiadora;

A entrevista terminou ali mesmo, naquele instante, e o anjo carimbou com força na ficha de Moacir:
REPROVADO
Entregou-lhe o protocolo, e pediu a dois anjos desocupados que o acompanhassem. Tomaram-lhe pelo braço, chegaram até o limiar das nuvens e de lá se largaram em queda livre. Enquanto caíam, o alfaiate cantava, de olhos fechados:
“Hei de torcer, torcer, torcer…
Hei de torcer até morrer, morrer, morrer…
Pois a torcida americana é toda assim…”;

Deixaram-se despencar, rolando pelos céus, passando pelos aviões, escorregando terra abaixo, até que aterrissaram de bunda em um chão tão duro quanto avermelhado, e por um instante Moacir pensou que estivessem em Marte.
Foi quando os anjos, batendo a poeira de suas roupas branquíssimas, disseram:
Bem vindo ao umbral, e levantaram voo, deixando sob si um rarefeito redemoinho de poeira, que se desfez tão logo sumiram na infinitude.

E o alfaiate foi largado à própria sorte, entre um patamar do céu e um degrau do inferno. Foi deixado ali para que refletisse sobre suas escolhas, para que digerisse seus erros, para que reparasse tudo o que o Senhor desejava. E assim o fez.
Caminhou durante dias por aquele vale escuro e de terras mortas. Passou a conhecer cada

pedra, cada curva daqueles sinuosos rios de lama, e foi se purificando, em um processo tão lento quanto penoso.

Arrependeu-se das traições à esposa; lamentou a falta de paciência com os filhos; sentiu o coração apertado por cada moeda encontrada nas calças que consertou e não devolveu a seus clientes, enfim, sentia na alma. E após um ano os anjos retornaram, trazendo consigo o mesmo questionário. E Moacir respondeu da mesma forma, sendo outra vez reprovado, e novamente na mesma pergunta. E de novo foram embora os querubins. Mas da mesma forma que partiam, voltavam, anualmente, e cada vez que respondia sobre seu time os anjos carimbavam seu protocolo com força, deixando-o naquele mundo solitário e de provações, sozinho com seus pensamentos.

E os anos se passaram, as décadas se sucederam, e Moacir afastara todos os pensamentos ruins, arrependera-se profundamente de seus pecados, tornou-se puro como jamais fora. Era uma alma nova e totalmente recuperada.

Mas o tempo passava e seu passaporte para fora daquele lugar jamais era concedido.
Até que um dia viu uma silhueta ao longe. Não era nenhum dos anjos que o visitavam.

Ao que tudo indicava, finalmente haveria de ter companhia. Tinha uma aura diferente, andava com passadas decididas, vestia um elegante terno, caminhava sem pressa em sua direção.

Ao chegar, levantou o chapéu em saudação, estendeu-lhe a mão e com fina ironia em seus modos, disse-lhe:
Estamos no mesmo time;
Depois, com um breve gesto afastou a lapela do paletó, revelando uma camisa vermelha, onde brilhava um escudo do América.
Venha comigo;
E sem mais, saíram juntos, abraçados, cantando aquela velha canção que dizia:

“Hei de torcer, torcer, torcer…
Hei de torcer até morrer, morrer, morrer…
Pois a torcida americana é toda assim
A começar por mim
A cor do pavilhão é a cor do nosso coração
Em nossos dias de emoção
Toda torcida cantará esta canção
Tra-la-la-la-la-la
Tra-la-la-la-la-la
Tra-la-la-la-la
Campeões de 13, 16 e 22
Tra-la-la
Temos muitas glórias
E surgirão outras depois
Tra-la-la
Campeões com a pelota nos pés
Fabricamos aos montes, aos dez
Nós ainda queremos muito mais
América unido vencerás!”

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10 respostas para Tributo ao Diabo

  1. Marcelo Abreu disse:

    Lindo texto. Melhor ainda a recordação do Mecão. Aprendi seu hino para ganhar uma gincana no colégio e jamais o esqueci! De alguma forma me identifico com este time pq o meu parece estar seguindo o mesmo caminho..

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  2. MENDONÇA, Leonardo disse:

    Esperamos poder conhecer vocês em breve, os textos estão cada vez melhores.
    Parabéns

    Curtido por 1 pessoa

  3. Ai Jeremias, teus textos estão cada dia mais afiados. Gostei !
    Parabéns e continue escrevendo !

    Curtido por 1 pessoa

  4. alanparada disse:

    Sou amigo de 3 dos 4 pitaqueiros e já tive o meu pitaco tricolor devidamente registrado no blog…
    E nunca, nunca mesmo, li um textõ tão legal e genial quanto esse.
    Parabéns para vocês! Parabéns ao Amércia!
    Hei de torcer até morrer!!!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Petrúcio Lima. disse:

    Ótimo texto. Bem estoriado. Sugiro a continuação da “saga” com o encontro dos dois “ameriqueiros”. Deve ser ótima!
    Já estou pensando que deve acontecer o mesmo comigo . . . “Uma vez . . . Flamengo até morrer! Pai por que nos abandonastes?”

    Curtido por 1 pessoa

    • Muito obrigado por sua visita, e ainda mais por sua participação, caro Petrúcio.
      A sugestão para o novo texto está anotada, e quanto ao fato de cantar o hino do Flamengo quando for para o outro lado, prometo fazer coro contigo.
      Um grande abraço!

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