Teorias de Várzea

Por: Valdez Gomes

balé

Cresci ouvindo a velha máxima que diz:

“Futebol não se aprende na escola”

Em parte, isso é verdade. Não se pode ensinar um menino a ter habilidade nos dribles e no trato da pelota. Vem de berço, tá na corrente sanguínea, na medula óssea.

A questão é que essa mesma verdade nos aponta um indício do porquê estamos nessa draga, com raros valores individuais, times pouco/nada expressivos e uma Seleção que se resume a um cara só.

De fato, futebol não se aprende na escola, mas as escolinhas estão fazendo a molecada desaprender a jogar. Conceitos pré-concebidos, moldes ultrapassados, teorias de várzea; fazem com que a garotada cresça jogando um jogo que não pode ser chamado de futebol.

E os “professores”, supervalorizados, negam-se a enxergar que são os responsáveis diretos por esse quadro de estado terminal em que se encontra o futebol brasileiro. Não há debate, reciclagem, boa vontade ou mea-culpa nesse meio. Raríssimos são os que destoam dessa doutrina do “eu ganhei, nós empatamos e vocês perderam.” É muito fácil culpar a safra ruim, mas nenhum deles assume o papel de semeador desta colheita infrutífera.

A empáfia é tamanha que, quando demitidos por maus resultados em seus clubes, alguns deles, com orgulho ferido, são socorridos por assessores que adoram anunciar períodos de sabatina na Europa; muitos, na verdade, vão ao Velho Mundo fazer turismo em lugares badalados e tirar selfies ao lado de figuras importantes do futebol. Quantos deles de fato assistiram a uma palestra dos Mestres Europeus?

Não precisam disso, são autossuficientes… Futebol não se aprende na escola, dirão alguns deles.

Futebol não se aprende mesmo – e graças a isso o Brasil foi campeão do mundo 5 vezes -, mas tática, estratégia, governança…
ah… mas isso, eles, talvez, só conheçam de nome.

Por outro lado, os grandes mestres não se envergonham de aprender: vejam o caso se Pep Guardiola, o cara que reinventou a roda. Guardiola é amigo de ninguém menos que Garry Kasparov, o maior enxadrista da história. Preciso dizer mais alguma coisa?

Outro exemplo, dentro do mundo esportivo mas longe da bola, é Evander Holyfield, ex-campeão dos pesos-pesados do boxe. Este declarou ter buscado ajuda no balé para melhorar sua performance nos ringues, aprimorando movimentos e equilíbrio. Isso é de fazer inveja ao mais humilde dos monges tibetanos!

Mas aqui é diferente….
“Aqui é trabalho, meu filho!’, famosa frase do professor Muricy Ramalho, multicampeão e semeador do futebol competitivo. Esse mesmo que, na final do Mundial de Clubes de 2011, levou de 4 do Barcelona – que à época era capitaneado por ninguém menos que o tal amigo do jogador de xadrez – e saiu-se com a seguinte declaração:
“O que aprendi com essa derrota? Nada! Derrotas não me ensinam nada.”

Todos achamos que aprendemos – ou ao menos deveríamos tirar lições – com o onipresente VII x I aplicado pelos Bávaros no ano passado. Mas Felipão e Muricy, talvez não.

Do lado de cá, nós, torcedores, só fazemos reclamar da incompetência dos técnicos ultrapassados, mas torcemos o nariz quando um treinador ousa ser diferente. O simples fato de ser polido, culto, sereno, nos causa estranheza. Esse não é o perfil de treinador que gostamos! Pra treinar time brasileiro precisa ter “aquilo roxo”, cuspir no chão, dar patada em entrevistas, “queimar jogador”… São coisas que estamos acostumados a ver em gente que comeu a merenda, mas não frequentou a escola.

Afinal, o que queremos?
Aprender a matéria ou passarmos de ano?

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Uma resposta para Teorias de Várzea

  1. Caroline Ferreira disse:

    Em minha humilde opinião, futebol é instintivo, sim. Inesperado. Essa mistura de prazeres, amores e sabores, não tem explicação…
    Contudo, não estou convencida de que conhecimento técnico seja dispensável.
    Josep Guardiola é um grande exemplo: ele reconhece uma boa idéia, e a rouba. Ouve mais do que fala e consegue ser mais do que um técnico; e como foi dito,reinventou o futebol.
    Com suas teorias inovadoras e criativas, Pep conduziu uma estrela e está conduzindo outra. Não aceitaram seu trabalho de treinador em nossa ex-Gloriosa Seleção Brasileira. Poderia apenas mostrar que ter os melhores jogadores não basta.
    Holyfield, quem diria, experimentou o outro eixo do costumeiro. E continuou surpreendendo.
    O padrão brasileiro é alimentar-se da história. Só comer a merenda… Gritar, xingar, ofender, gesticular e ganhar uma coisa ou outra não tem feito nosso futebol o gigante que era. Não aprendemos e nem levamos nada.
    Não sei o que falta mas ouvi Guardiola dizer que para melhorar, é preciso piorar primeiro.
    Vou esperar a pior fase passar.

    Curtido por 1 pessoa

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