Memória em Branco e Preto

Texto por: Davi Miranda

É uma pena que minha memória tenha derrubado pelo caminho a maioria das coisas que eu gostaria de guardar. O engraçado é que o que ainda trago comigo não é o que houve de mais importante – nem tampouco o melhor ou o pior que vi. São cenas, apenas cenas, que um dia o tempo irá apagar.

Dizem que quem apanha se lembra, enquanto quem bate se esquece. Ao menos para mim essa frase faz sentido: um dia, numa discussão tola de garotos numa casa de jogos eletrônicos, levei um soco no rosto. Não sei bem explicar o porquê dessa lembrança persistir, mesmo tendo se passado mais de 20 anos. E aposto que Hernane, o agressor – que não vejo desde aquela época – sequer se lembra que eu existo. Isso, hoje em dia, não tem a menor importância. São apenas cacos que eu carrego por aí, um volume desnecessário.

Toda derrota traz um impacto, maior para uns, menor para outros. E o que determina a posição nessa escala são as circunstâncias dos acontecimentos.

Na história do futebol brasileiro podemos dizer que temos três grandes traumas: 1950, 1982 e 2014. E é difícil apontar qual deles é o mais doloroso.

Por muitos anos o Maracanazo de 50 reinou absoluto como nosso bicho papão. Até hoje sinto calafrios só de ver as fotos daquela tarde, desbotadas num preto e branco mórbido. Barbosa, meu Deus, pelo o que sofreu, deveria ser canonizado.

A derrota de 82 é a mais simbólica de todas. O Massacre do Sarriá é uma grande metáfora da vida: se a arte e o dom da criação – maiores expressões de nossa humanidade – forem subjugados pela força, que tipo de mundo estaremos moldando?

Quanto à derrota de 2014, ainda catamos os cacos da explosão. É bastante cedo para apontarmos as implicações desse desastre, e me parece que a perícia sequer chegou a um consenso sobre o que levou ao 7 a 1. Talvez o laudo demore décadas para ser finalizado e, os escombros, ainda à nossa frente, não nos deixam esquecer.

Existem memórias que vivemos e memórias que herdamos, mas com o passar do tempo ambas se misturam. Quando isso acontece, deveríamos nos preocupar em não perdê-las, pois cada vez que uma delas se apaga, apaga-se um pouquinho de nós.

barbosa

Fonte da foto: uol.com.br
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4 respostas para Memória em Branco e Preto

  1. Marcelo Faviere disse:

    Baita texto, gosto muito de lembranças, memórias, principalmente sobre esporte.

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  2. Davi Miranda disse:

    Valeu por sua participação, Marcelo.
    Do jeito que o futebol brasileiro anda, maltratado e mal jogado, é muito melhor ficarmos com as memórias.
    Abraço!

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  3. Jorge Americo disse:

    Excelente texto, Biafrin.
    Me fez lembrar de um fato que ocorreu comigo na semana passada e que te envolve.

    Estava eu andando por Vila Isabel e um homem aparentando meia idade, rosto castigado pelo tempo, pelos raios do sol, braços longos e peludos, pouco cabelo me parou e perguntou:
    – Hey cara, você ae…
    – Quem, eu?
    – é…vc não é amigo daquele tal de Dayvid, um cabeludo que morou ali na rua dos Bombeiros e vivia pela rua jogando Street Fighter e Mortal Kombat?
    – então. Meu nome é Hernane.
    – ah sim, e?
    – Se você ainda mantem contato com ele, diga-o que nunca me esqueci quando ele me roubou naquele golpe do Sub Zero com fatality, arrancando minha cabeça na frente de todos os moleques da rua.
    – Se ele aparecer aqui novamente, eu darei outro soco na cara dele.
    – Aquela lembrança atormentou minha adolescência, minha juventude. Tive que ir a psicólogos, psiquiatras e hoje ainda me dopo com remédios e drogas maiores por conta do trauma;

    Eu parei, olhei pro cara que já estava espumando e disse:
    – cara, sou amigo dele e nunca direi a você que ele agora mora em Maceió, na Ponta Verde, que ganha a vida dando entrevistas e escrevendo textos e livros, contando a todos como sacaneou um tal de “Hernane da Vila”.
    Deixei ele chorando, me virei e sai…
    Lembranças podem ser dolorosas…
    Ah Brasil, 82, 7×1…isso, isso…

    Curtido por 1 pessoa

  4. Gabriel Gomes disse:

    Eu acredito que evoluímos para uma geração com uma memória seletiva. Não lembramos. Vamos caminhando… anestesiados pelos sucessos vazios que alcançamos.

    Que lembra da boate Kiss, das enchentes, do Collor, etc

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