Um Cafezinho, Umas Verdades e a Conta

Texto por: Valdez Gomes

Vivemos tempos em que ter opinião própria e colocá-las para fora é um verdadeiro ato de suicídio moral, uma heresia, um descalabro. Ser isento, não contrariar o “senso comum”, concordar com o obrigatório status de politicamente correto é o que  vale. Pensadores proativos, abertos e incautos que declaram o que pensam são condenados sumariamente à pena de corte. Corte no orçamento, na escalação do time, na roda de amigos… Passam a ser persona non grata. Idiotas com ideias pasteurizadas, discursos vazios e batidos, ou simplesmente declaração de silêncio, terão êxito na carreira, nos meios sociais, nas convocações e escalações. A era do discurso afinado está acabando com a graça do futebol.

Mas nem tudo está perdido, recentemente algumas declarações me chamaram a atenção pelo simples fato de serem sinceras.
De tão raras que são, ficaram martelando na minha inquieta consciência. Provavelmente, ninguém se deu conta e os que deram, apedrejaram caracteres raivosos na direção das vozes dissonantes do “normal”

Como é bom ouvir um pouco de sinceridade nos dias de hoje… Imagino como os Patrulheiros da Verdade Suprema reagiram ao ouvir essas:

“Quem se contenta com titulo de campeonato estadual, é time carioca”
Alexandre Kallil em entrevista ao ESPN, falando das ambições do Atletico-MG, antes da eliminação da Libertadores;

“O Vasco não tem time para disputar o titulo do Brasileiro, vamos brigar para não fazer feio”
Dagoberto em entrevista após o segundo empate consecutivo do time no brasileiro;

“Messi caminha para ser o maior jogador da história do futebol ao lado de Pelé”
Juninho Pernambucano ao comentar o jogo Barcelona vs Bayern pela Liga dos Campeões.

E menos recente, Roberto Dinamite, então presidente do Vasco em 2008 -ano do primeiro rebaixamento- cheio de raiva e razão disparou:

“Já joguei em times mais medíocres que esse e fui campeão”

O que muito me incomoda é que opiniões sinceras e contundentes como essas não ecoam, pelo contrário, são desconsideradas e relegadas à vala comum das críticas iradas dos doutrinados a ouvir as verdades supremas, os dogmas do futebol.

A autenticidade no futebol existe, são ditas a todo o momento, só não podem ser faladas, lidas e ouvidas. E vejam quão curioso é… As maiores verdades são exclamadas dentro de campo, em meio ao jogo, com as câmeras ligadas, microfones de ambiente apontados para os jogadores, mas estes, malandros que são, driblam a espionagem sensacionalista com a mão a frente da boca, como um desfragmentador de palavras. Ali são combinadas jogadas, armações, críticas e até mesmo o pagofunk e o sertanejo onde se esbaldarão depois do jogo.

Sejamos mais francos, falemos as verdades, mesmo que depois venham se desculpar com autênticas notas editadas por seus assessores de imprensa com desmentidos e o “não foi bem isso que falei”.

Seriam essas as tais “mentiras sinceras” que o Cazuza falava?

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3 respostas para Um Cafezinho, Umas Verdades e a Conta

  1. Caroline Ferreira disse:

    Antes de tudo, falar a verdade é um ato de coragem né? No futebol, na política, na música…
    Vamos a alguns fatos:
    – Zeca Camargo transmite de maneira televisionada sua opinião sobre a morte de uns e outros, e foi, está sendo e será por um bom tempo, criticado e ridicularizado por isso;
    – Fred, atacante do Fluminense, declara ainda em campo, que o campeonato estadual deve ser extinto, por qualquer motivo. E é punido por isso;
    – Uma atriz (não lembro quem), rebateu uma afirmação sobre a desigualdade social no país em um programa de televisão, e foi acusada de apoiar o atual governo;
    – Mario Balotelli, encarado desde sempre como uma peça polêmica do esporte, publicou uma frase repleta de ambiguidade, porém, com humor (para alguns) e foi acusado de racista. Sério? Mario Balotelli racista?
    Interpretação de texto é uma dádiva. Apesar de todos entenderem, daquele assunto, o que querem ou o que lhes convém.
    Pondere sua bela sinceridade… Especialmente para falar do Vasco 😀 Eu não aceitarei desculpas.
    Concordando ou discordando, está mais saudável se manter calado. A verdade é que “quem vai de encontro a maré”, não tem validade.

    Mentiras sinceras, meias verdades…

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  2. Gabriel Gomes disse:

    Vivemos em um grande big brother cotidiano. Estamos sendo monitorados pela opinião alheia. Michel Foucault, em 1975, apresentou ao mundo o “Vigiar e punir: Nascimento da prisão”, onde ele nos leva a refletir sobre a convivência em sociedade nos tempos modernos.

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  3. Elaine disse:

    Não é muito simples emitir uma opinião contrária do senso comum. Se socialmente já pode gerar problemas, imagina isso sendo feito de forma pública e por pessoas públicas?

    Concordo que deixar de dizer a verdade seja falta de coragem, mas nas circunstâncias supracitadas eu penso que tenha um pouco a ver com valer ou não a pena se indispor publicamente (com o time, com torcedor, com patrocinador, com a imprensa, etc.) SÓ pra emitir uma opinião; porque muitas vezes as conseqüências são represálias que determinam o futuro na própria carreira do jogador. São as relações políticas que fazem isso. É um conflito de interesses que acontece em qualquer meio, com qualquer profissional.

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