Secreção Brasileira

Texto por: Gabriel Gomes

A seleção de Dunga está ganhando. A seleção brasileira está perdendo.

A relação de quem possui CPF brasileiro e o time de futebol que representa o seu país está desgastada. Constatação carimbada, das mesas dos armazéns do interior aos botequins repaginados da grande Tijuca.

Quando nascemos, nos são concedidos alguns bens imateriais. São eles: cinco estrelas no peito, reflexo corrupto, a síndrome do jardim do meu vizinho é mais bonito, o hábito do arroz e feijão, a habilidade de receber bem as pessoas em sua comunidade, aptidão para artes, o prazer de beber uma cerveja que basta estar gelada, reclamar e não fazer sua parte, ódio pelos boludos Hermanos e não vale a pena continuar.

Vamos nos ater a questão da bola.

A história é longa e dramática, como um bom romance. As bases desse relacionamento foram construídas com desconfiança, improviso, separações, decepções, conquistas e glórias. A imagem do brasileiro no mundo é representada pelo futebol praticado por sua seleção, que ao longo dos anos encantou cada habitante da terra. E criou um sentimento de orgulho e representatividade positiva frente aos problemas sociais, políticos e econômicos do país. Algo irresistível para o ser humano que geneticamente é programado para ser carente.

Mas… um vilão chamado tempo, fez do futebol mais uma de suas vítimas, e o evoluiu para um esporte pragmático, onde técnicos estrategistas dão as cartas e esquemas táticos ganham uma importância desproporcional.

Resultado: O menino talentoso de Padre Miguel não passou mais nas peneiras e o camisa 10 entrou em extinção.

A magia foi substituída por um meio campista que desempenha todas as funções do time como um robô binário que, ou marca ou toca a bola.

Os comerciais da Nike já não são mais o espelho das partidas e o zé povinho não aceita.
Esse quadro produz paulatinamente um distanciamento entre o torcedor e a seleção. Somados aos resultados que não alcançamos, o público não aceita, transforma-se no seu maior crítico e passa a adotar um discurso pachequista. Amor e ódio são vizinhos e espectadores de uma relação arruinada pela transformação do jogo.

O torcedor não acompanhou a evolução e deseja um grupo vencedor jogando de acordo com seu DNA. Temos um problema.

A solução não é simples. Chegou a hora de evoluir respeitando nossas tradições. Voltemos aos conselhos clichês das reuniões de dependentes de qualquer vício, onde o mantra é: “O primeiro passo é admitir”.

E ainda não admitimos. Somos arrogantes.

Não estamos prontos para evoluir.

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2 respostas para Secreção Brasileira

  1. Victor disse:

    Exemplo maior de nossa arrogância pôde ser presenciada no jogo contra a Colômbia há poucos dias atrás.
    Diante da pífia apresentação, a comissão técnica e os jogadores preferiram justificar a falta de qualidade técnica, tática e o comportamento infantil de alguns atletas a partir de erros da arbitragem(que eu sinceramente não vi). Nenhum jogador ou membro do corpo técnico teve a decência de assumir o péssimo futebol apresentado, ninguém teve a hombridade de criticar o nervosismo e a imaturidade que os torcedores, a imprensa e os amantes do futebol de uma forma geral presenciaram.
    Esse esporte que todos nós amamos, vem consolidando um pragmatismo não só dentro do campo, mas também fora, com discursos e justificativas que de tão “manjadas” beiram alguns comícios políticos.
    Embora o talento ainda sobreviva, é preciso usa-lo com inteligência e sabedoria, senão a evolução mencionada no artigo de fato não acontece. E o sentimento de desesperança que acomete o brasileiro no campo politico, econômico, jurídico, social…….. pode se tornar também uma realidade permanente dentro das quatro linhas!

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  2. Gustavo Zacaro disse:

    Caro Blogueiro, parabéns pelo conteúdo produzido
    Quando criança e até outro dia, um ditado martelava nas midias e rodas de discussão: “Futebol não se aprende na escola”
    Pois é, habilidade com a bola nos pés não se aprende mesmo, mas tática e suas varições, sim.
    Acho que o Brasil por ser um país de terceiro mundo, que trata a educação como supérfluo, enfrenta agora uma crise técnica por falta de cultura.
    Nossos técnicos não têm o habito de estudar, daí a dificuldade saírem do país e conseguir trabalhos consistentes em outras terras.

    Você não acha que isso faz um certo sentido?

    Mais uma vez parabéns pelo texto postado.

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